LINGUAGEM E EMOÇÕES: DISCURSOS DE PODER, CONSTRUÇÃO DE REALIDADES SOCIAIS, TEORIAS E METODOLOGIAS DE INVESTIGAÇÃO CONTEMPORÂNEAS
O estudo da relação entre discurso e emoção tem adquirido uma relevância crescente nas ciências da linguagem e nas ciências sociais, uma vez que as emoções não constituem apenas experiências individuais, mas também fenómenos sociais que se constroem, expressam e negoceiam através da linguagem. Nesta perspetiva, o discurso transcende a transmissão de informação para se tornar num espaço onde se produzem significados, se configuram identidades, se estabelecem relações sociais e se articulam dinâmicas de poder. Consequentemente, as emoções fazem parte dos processos discursivos através dos quais as pessoas interpretam a realidade e interagem em diferentes contextos sociais.
A partir da Análise Crítica do Discurso, Norman Fairclough (1992) sustenta que o discurso é uma prática social intimamente ligada às ideologias e às relações de poder. Neste quadro, as emoções funcionam como recursos discursivos que contribuem para legitimar ou questionar práticas, valores e instituições. Por sua vez, Teun A. van Dijk (2008) destaca a relação entre discurso, cognição e sociedade, assinalando que as emoções influenciam a construção de modelos mentais, a interpretação dos acontecimentos e a formação de representações sociais partilhadas. Assim, as componentes afetivas participam tanto na produção como na compreensão dos discursos.
A partir da abordagem histórico-discursiva, Ruth Wodak (2009) demonstra que os discursos públicos mobilizam emoções como o medo, a solidariedade, a esperança ou a indignação para construir identidades coletivas, legitimar decisões políticas e influenciar a opinião pública. Esta perspetiva complementa-se com as propostas de Patrick Charaudeau (2011), que sustenta que a eficácia do discurso político depende não só da argumentação racional, mas também da mobilização dos afetos através de estratégias discursivas orientadas para gerar adesão, rejeição ou identificação.
No âmbito da linguística, James R. Martin e Peter R. R. White (2005), no quadro da Linguística Sistémico-Funcional de M. A. K. Halliday (2014), desenvolveram a Teoria da Valoração (Appraisal Theory), que descreve os recursos linguísticos através dos quais os falantes expressam emoções, emitem juízos e constroem valorações. Esta abordagem permite analisar como as escolhas lexicais e gramaticais contribuem para a construção de significados afetivos em diferentes géneros discursivos. De forma complementar, Sara Ahmed (2004) sustenta que as emoções circulam socialmente através da linguagem e das práticas discursivas, configurando vínculos, identidades, pertenças e processos de inclusão e exclusão.
No seu conjunto, estas perspetivas coincidem em que as emoções são práticas sociais mediadas pela linguagem e desempenham um papel fundamental na produção de significados, na construção de identidades e nas dinâmicas de poder. Neste quadro, o presente simpósio propõe um espaço de diálogo interdisciplinar para analisar o papel das emoções na produção, circulação e interpretação dos discursos em contextos sociais, políticos, educativos, mediáticos e culturais. Procura ainda promover o intercâmbio de perspetivas teóricas, metodologias e estudos empíricos que contribuam para o desenvolvimento da investigação sobre a dimensão emocional do discurso.
