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ARQUIVO E REDUÇÃO. ORALIDADE, MEMÓRIA E TRANSFORMAÇÕES DIGITAIS

As transformações digitais das últimas décadas modificaram radicalmente os modos de produção, conservação, classificação e acesso aos arquivos. Para além dos discursos celebratórios sobre a democratização da informação, torna-se necessário perguntar que operações de seleção, normalização e redução linguística acompanham esses processos. Este simpósio propõe repensar a noção digital de arquivo não só como uma ampliação técnica das capacidades de armazenamento e circulação, mas como um dispositivo que reorganiza as relações entre oralidade, escrita, memória e poder.
A proposta toma como ponto de partida duas linhas de reflexão complementares. Por um lado, a noção de «redução», para pensar formas históricas de classificação e controlo da palavra; por outro, os debates recentes em torno das novas ecologias documentais produzidas pela digitalização, pela automatização dos sistemas de classificação e pelas infraestruturas de dados. Nesta perspetiva, interessa analisar como as tecnologias digitais prolongam –ainda que em novas condições– operações históricas de redução: da voz ao texto, do acontecimento ao dado, da experiência ao registo, do documento ao metadado, da escrita à oralidade?
O simpósio convoca trabalhos que abordem estas questões a partir de perspetivas diversas –antropologia, linguística, glotopolítica, história, biblioteconomia, arquivística, ciências da informação, estudos de media, humanidades digitais, sociologia ou filosofia da tecnologia– e que permitam pôr em diálogo arquivos históricos e contemporâneos, memórias institucionais e comunitárias, documentos escritos, registos sonoros, audiovisuais e digitais. Procura-se especialmente favorecer investigações sobre línguas minorizadas, patrimónios documentais, arquivos privados e públicos, políticas de preservação, classificação do conhecimento e soberania dos dados culturais.
Além disso, o simpósio propõe abrir uma discussão sobre um problema emergente para a teoria e a prática arquivísticas: a produção de documentos através de sistemas de inteligência artificial. Se durante séculos o arquivo se organizou em torno da preservação daquilo considerado irrepetível, a geração automática de textos, imagens, sons e vídeos obriga a rever esse pressuposto. O que significa conservar um documento que pode voltar a ser produzido indefinidamente? Deve preservar-se o resultado gerado, o modelo que o produz, o prompt que o originou ou as condições da sua criação? Mais do que oferecer respostas fechadas, estas perguntas procuram ampliar a reflexão sobre as formas contemporâneas de inscrição, autenticidade e memória.
O objetivo do simpósio é construir um espaço de intercâmbio interdisciplinar que permita pensar o arquivo como um campo de disputas técnicas, políticas e culturais. Mais do que um depósito de documentos, o arquivo constitui uma tecnologia de produção de memória, de legitimação de saberes e de organização do futuro. Interrogar as atuais transformações digitais implica, portanto, perguntar também que vozes se preservam, quais permanecem invisíveis e sob que critérios se constroem as memórias coletivas do presente.

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