INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A TRANSFORMAÇÃO DA RELAÇÃO HUMANA COM O MUNDO
Este simpósio parte de duas perguntas centrais. Primeira: estaremos perante uma transformação relevante da relação humana com o mundo, ou perante uma intensificação de dinâmicas já existentes sob uma nova superfície técnica? Segunda: que papel deveria ter a antropologia como ciência neste contexto de implementação acelerada de ferramentas de inteligência artificial (IA)?
Para abordar a primeira pergunta, partimos de duas tradições que refletiram sobre a relação entre tecnologia, sociedade e experiência humana. A primeira propõe que a modernidade tardia se caracteriza por uma relação cada vez mais instrumental e menos ressonante com o mundo, uma aceleração que transforma não só o que fazemos, mas como nos relacionamos com o que nos rodeia (Hartmut Rosa). A segunda, proveniente da antropologia da tecnologia, mostrou que a agência tecnológica nunca é autónoma: é sempre distribuída, negociada e dependente do contexto concreto em que se desdobra (Lucy Suchman). Ambas as perspetivas permitem perguntar-nos se a IA reconfigura efetivamente a nossa relação com o mundo, ou se antes aprofunda processos de instrumentalização que já existiam antes da sua chegada.
Partimos da premissa de que a IA não só automatiza tarefas, mas medeia e reconfigura as formas como as pessoas se relacionam com as coisas, com o conhecimento e entre si. Um exemplo quotidiano (a consulta com um dentista mediada por diagnóstico algorítmico) ilustra como a introdução de sistemas de IA não é neutra: redistribui a confiança e transforma a própria experiência do cuidado. Fenómenos análogos ocorrem na produção de conhecimento, onde a autoridade epistémica é questionada, e no trabalho, onde surgem perguntas em aberto: a IA cria trabalhadores menos competentes ou facilita as suas tarefas? Estes casos ocorrem num momento de clivagem: estas tecnologias estão apenas a começar a ser implementadas em grande escala e ainda não sabemos se a promessa de uma revolução tecnológica se cumprirá, ou se a sua relevância real ficará muito aquém das expectativas nela depositadas. Esse caráter incerto é, em si mesmo, objeto de indagação antropológica.
Um eixo transversal do simpósio é o papel que deveria assumir a antropologia perante a introdução acelerada destas tecnologias. Para além de documentar e antecipar os seus efeitos, interessa-nos colocar no centro uma pergunta mais radical: cabe à antropologia um papel meramente reativo (analisar os efeitos da IA depois de implementada) ou deveria propor ativamente um mundo possível, face ao qual estas ferramentas sejam depois avaliadas segundo o seu contributo ou a sua contradição? Esta pergunta orienta o sentido último do simpósio: não apenas registar transformações, mas discutir o lugar normativo da disciplina perante elas.
Convocamos trabalhos empíricos e teóricos sobre a relação entre IA e transformação social, em qualquer âmbito da vida humana, e sobre o lugar da antropologia neste processo. Procuramos contributos que dialoguem com o eixo temático «Tecnologias: poder, cultura e sociedade» do congresso, seja a partir de estudos de caso situados ou a partir da reflexão concetual.
