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SANTUÁRIOS LATINO-AMERICANOS DE ONTEM E DE HOJE: TRADIÇÕES, RESISTÊNCIAS, ESQUECIMENTOS E MEMÓRIAS

Os santuários latino-americanos, entendidos como espaços de especial sacralidade e centros de peregrinação, constituíram cenários privilegiados para a investigação a partir das ciências sociais e da etno-história. Desde tempos pré-hispânicos, estes lugares configuraram-se como territórios de convergência religiosa onde se articulam práticas rituais, objetos de culto, narrativas e memórias que se transmitem entre gerações. A sua historicidade permite compreender a persistência e transformação de diversas tradições devocionais, bem como as relações entre religião, território e organização social.
Na América Latina, as mobilidades de peregrinos, os relatos milagrosos, os emblemas religiosos e as múltiplas materialidades associadas à devoção (estampas, ex-votos, relíquias, pedras, cruzes, entre outras) evidenciam complexos processos de interação entre o cristianismo e diferentes formas de sacralidade indígenas e afrodescendentes. Longe de constituir expressões homogéneas, estes espaços revelam continuidades, ressignificações e agências que permitiram a coexistência de cosmologias diversas. Em numerosos casos, os santuários consolidaram-se como âmbitos de encontro de populações indígenas e afrodescendentes, mesmo através de fronteiras nacionais, congregando fiéis de variadas adscrições culturais, étnicas e políticas que, através da ocupação temporal de espaços públicos e privados, reconfiguram territorialidades e formas de pertença, particularmente durante as festividades religiosas.
Entendidas como factos sociais totais (Mauss), estas celebrações condensam múltiplas dimensões da vida coletiva, tornando visíveis processos de construção identitária, memórias sociais, disputas pelo território, dinâmicas de mestiçagem e hibridação cultural, reivindicações étnicas, manifestações artísticas, políticas patrimoniais e estratégias de ativação turística, entre outras. Tais processos articulam-se em torno de imagens e entidades sacralizadas (virgens, cristos, santos ou outras invocações) cuja centralidade transcende o calendário litúrgico oficial. Consequentemente, o estudo dos santuários não se restringe às grandes cerimónias públicas, mas remete também para práticas devocionais quotidianas desenvolvidas em âmbitos domésticos e comunitários, onde as relações com as imagens sagradas se desdobram em temporalidades e espacialidades próprias, frequentemente à margem ou nos limites do controlo institucional.
Nesta perspetiva, o presente simpósio convoca a apresentar investigações que, a partir das ciências sociais e, de modo particular, da etno-história, problematizem os processos sociais, culturais, políticos e religiosos associados aos santuários em diversos contextos geográficos da América Latina. Serão privilegiados os contributos que, através de abordagens históricas, etnográficas ou comparativas, examinem as continuidades e transformações experimentadas por estes espaços desde o período pré-hispânico até ao presente, ou que aprofundem cenários histórico-etnográficos específicos.
Com esta convocatória procuramos favorecer um diálogo interdisciplinar que promova o intercâmbio de evidências empíricas, perspetivas analíticas e ferramentas teórico-metodológicas, contribuindo para enriquecer o estudo dos santuários como espaços históricos de produção de religiosidades, memórias, territorialidades e relações interculturais na América Latina.

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