DRAMATURGAS DA HISPANO-AMÉRICA: TRADIÇÃO, MEMÓRIA E REESCRITA DO CÂNONE TEATRAL
Durante boa parte da história do teatro hispano-americano, a dramaturgia escrita por mulheres ocupou um lugar marginal nos relatos oficiais da cena. Antologias, histórias do teatro e programas de estudo costumam mencioná-las como exceções, em vez de as considerar parte constitutiva da tradição dramatúrgica do continente. No entanto, desde o século XIX até à atualidade, mulheres dramaturgas do México, Argentina, Brasil, Colômbia, Chile e Caraíbas produziram uma obra vasta e diversa que interroga os relatos hegemónicos sobre a nação, o corpo, a memória e a violência. Este simpósio propõe reunir investigações que dêem visibilidade a essa produção e que discutam, a partir de diferentes perspetivas metodológicas, o seu lugar na tradição, bem como o seu potencial de inovação.
Em sintonia com o lema do Congresso, «Tradição e Inovação: as Memórias das Américas», interessa-nos explorar como a dramaturgia de autoria feminina tensiona ambos os termos. Estas obras dialogam com uma tradição dramatúrgica herdada e apropriam-se dela, mas ao mesmo tempo transformam-na a partir de experiências, corpos e memórias que o cânone patriarcal deslocou.
Algumas das perguntas que se podem colocar ao considerar o corpus que nos interessa são: Porque perduram as dramaturgas que ultrapassam o cânone da sua época? Porque se atreveram com outros temas, outras formas de representar a vida? Será que nelas opera uma certa rebeldia face às regras literárias e à norma patriarcal?
O simpósio convoca as e os participantes a apresentar comunicações em torno de diferentes eixos, que podem dialogar entre si. Interessa-nos, sobretudo, um eixo sobre as escritas do corpo e da memória: como estas obras representam a violência de género, a maternidade, o desejo ou o envelhecimento enquanto territórios políticos, e como essas representações dialogam –ou rompem– com as convenções do drama que as precede. Esperamos também comunicações sobre as genealogias e arquivos da dramaturgia escrita por mulheres, desde as pioneiras oitocentistas até às autoras contemporâneas, atendendo aos critérios que decidiram a sua inclusão ou exclusão do cânone. Cabem igualmente trabalhos sobre dramaturgias interculturais, indígenas e afrodescendentes; sobre a circulação, tradução e encenação destas obras dentro e fora dos seus países de origem; e sobre a relação entre dramaturgia, direitos humanos e memória histórica, entendendo o teatro escrito por mulheres como uma forma de testemunho face aos relatos oficiais.
Convidam-se todos os que trabalham em estudos teatrais, estudos de género, história cultural ou crítica literária a apresentar trabalhos que se ocupem de autoras e obras específicas, bem como reflexões teóricas ou comparativas sobre o corpus dramatúrgico feminino na Hispano-América. Com este simpósio procuramos criar um espaço de encontro entre investigadoras e investigadores de diferentes países, que permita o diálogo entre tradições académicas e abordagens metodológicas diversas. Esperamos que as comunicações contribuam para uma historiografia teatral mais plural, que dê conta tanto das vozes que a tradição silenciou como das inovações que elas próprias geraram na cena contemporânea.
