Skip links

TEXTUALIDADES DO VIVENTE

O simpósio aborda a relação entre o humano e o não humano em diferentes registos estético-discursivos, como a literatura, o cinema, a filosofia e a antropologia. Trata-se de pensar uma problemática fundamental no mundo contemporâneo, relacionada com a crítica do especismo, do antropocentrismo, da devastação ambiental e também das formas de representar o não humano a partir de um olhar não só político, mas também estético.
No seu comentário à antropologia kantiana, Jacques Derrida, em O Animal que Logo Sou, ao questionar-se sobre o sentido de seguir o animal, mas também de seguir o antropocentrismo, adverte que «a socialização da cultura humana está ligada a esse enfraquecimento, a essa domesticação do animal amestrado. Não é outra coisa senão o tornar-se-gado do animal. A apropriação, o adestramento, a domesticação do gado adestrado […] são a socialização humana» (2008: 117). A partir desta observação, é possível afirmar que antropocentrismo e domesticação estão relacionados: a socialização humana estaria construída a partir da submissão e até do extermínio do animal. Ao longo da modernidade, esta lógica estendeu-se também àquelas formas de vida humana consideradas «animalizadas» ou «nuas», nos termos biopolíticos de Agamben.
No presente, os discursos neofascistas retomam essas figuras discursivas da animalização do outro que Derrida relaciona com essa forma de violência «predominantemente machista, tal como a própria dominação do predomínio guerreiro, estratégico, caçador, viriloide» (2008: 125). Esta problemática tornou-se ainda mais urgente no mundo contemporâneo, atravessado por sucessivos surtos de doenças zoonóticas, evidenciando as consequências nefastas da exploração capitalista do animal assente no especismo. Perante todos estes contextos, propicia-se a emergência de novos relatos sobre a relação entre as espécies, a busca de novas narrativas não articuladas ao progresso e à depredação, mas sim multiespecíficas. Como assinala Anna Tsing em O Cogumelo do Fim do Mundo, trata-se de olhar e sentir à nossa volta para nos apercebermos das possibilidades de sobrevivência colaborativa num mundo atravessado pela precariedade.
Deverá a reivindicação de um novo pensamento sobre o animal vir do Sul global? Esta convicção, subentendida de alguma forma em várias reflexões sobre a permanência dos epistemes coloniais, pode confirmar-se a partir de um corpus crescente de textos latino-americanos sobre antrozoologia, ficções de meados do século XX como as de José de la Cuadra e Horacio Quiroga, mas também contemporâneas como a de Samanta Schweblin, de artistas como Rufino Tamayo, Francisco Toledo, Wilfredo Lam, e de ensaios teóricos como os de Gamaliel Churata, Rodolfo Kusch, Alicia Puleo e Eduardo Viveiros de Castro, preparando a mudança de paradigma que se está a produzir na relação entre diversas formas viventes e os humanos.
Neste sentido, o simpósio procura abordar esta problemática a partir de diferentes disciplinas e saberes, como a história, a filosofia, a literatura, a sociologia, as artes, a ecologia política, que permitem compreender os novos relatos sobre as relações entre as espécies.

YouTube
Instagram
Explore
Drag