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O PRESENTE É PERPÉTUO. MEMÓRIA, HISTORICIDADE E FORMAS DO PENSAMENTO LITERÁRIO NA AMÉRICA LATINA

«O presente é perpétuo», escreveu Octavio Paz em Vento Inteiro (1965). A fórmula cifra uma conceção do tempo em que tradição, memória e atualidade não se sucedem como compartimentos estanques, mas como territórios de limites porosos que se interrogam e transformam mutuamente. Não por acaso, Alfonso Reyes chamou El deslinde (1944) ao seu grande tratado de teoria literária. Pensar a literatura talvez consista menos em fechar as suas fronteiras do que em reconhecê-las, percorrê-las e voltar a discuti-las. A partir daí, este simpósio propõe estudar as formas, os lugares e as operações através das quais a América Latina pensou a literatura e, ao mesmo tempo, pensou a partir dela a sua experiência histórica, cultural e política.
O pensamento literário latino-americano não se produziu apenas em tratados sistemáticos, nem dentro dos recintos académicos da teoria e da crítica. Encontra-se também disperso num arquivo mais inquieto e menos dócil: ensaios, manifestos, revistas, cartas, diários, autobiografias, traduções, trabalhos editoriais e, naturalmente, obras de criação. Voltar sobre esse amplo arquivo permite reconhecer genealogias, conceitos e poéticas que não nasceram de uma receção passiva de modelos alheios. As teorias chegadas de outras latitudes foram traduzidas, discutidas, deslocadas e refeitas ao entrarem em contacto com outras histórias, outras línguas e outros problemas.
Mas a literatura não foi apenas pensada no nosso continente. Também serviu para pensar. As suas formas não se limitam a representar uma realidade anterior e exterior, como se a obra fosse um espelho um pouco mais belo ou um documento menos fiável. A ficção, a poesia, o ensaio, o testemunho e as escritas fronteiriças estabelecem relações próprias com o tempo e a memória, ordenam a experiência, alteram as suas hierarquias e devolvem ao presente vozes que pareciam extintas. Por isso importa não só aquilo que as obras dizem acerca da história, das identidades, do poder ou das violências, mas também aquilo que as obras fazem com essas matérias e o conhecimento singular que produzem ao dar-lhes forma estética.
O simpósio atenderá às teorias e poéticas latino-americanas, à historicidade dos géneros, aos vínculos entre literatura, história e memória e aos problemas de realidade e ficção, testemunho e verosimilhança. Interessam igualmente as controvérsias das ideias literárias, as relações entre as tradições hispânica e lusófona e os modos como obras e conceitos do passado regressam ao presente, já transformados e, no entanto, ainda atuais e atuantes.
A proposta nasce no seio da Rede Ibero-Americana de Teoria e Estudos Literários (REDITEL-AUIP), onde estas questões sustentam há já algum tempo uma conversa entre investigadores, livros, projetos e tradições críticas de diferentes países. O simpósio quer levar essa conversa ao ICA e abri-la a outras vozes. No fundo, trata-se de voltar a uma questão antiga: como pensámos a literatura e como a literatura, por sua vez, interveio na nossa forma de compreender o tempo que nos coube viver.

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