OS TRAJETOS DO ROMANCE HISPANO-AMERICANO. VERTENTES ARTÍSTICAS, TEXTOS MARGINAIS, PROPOSTAS DE HISTORIZAÇÃO.
O romance hispano-americano teve um desenvolvimento sinuoso e desigual; coexistiram, nos diferentes momentos, diversos projetos estéticos, alguns muito ligados à continuidade das formas expressivas cultivadas na Europa, enquanto outros se foram conformando a contracorrente, na periferia da cultura, expressando-se em textos heterogéneos, compostos na mistificação de outras formas genéricas como a protonovela, memórias, relações, sátiras, o caso, relatos de viagem, etc. Esta faceta não foi totalmente explorada porque não se soube muito bem como proceder com este corpus tão diverso quanto inapreensível, mas que talvez tenha sido o que, de modo mais fecundo, contribuiu para a consolidação do género romanesco na Hispano-América. Daí a pertinência de incorporar a diversidade de formas em que o romance viveu, trazer à atenção crítica textos que ficaram marginalizados dos relatos históricos do romance; da mesma forma, impõe-se a necessidade de avançar propostas para historicizar o fenómeno, para além do inventário de obras e autores consagrados.
O romance hispano-americano é um território de disputas e debates de índole política, artística, de conceção do próprio género e da função da literatura, do papel do escritor e do intelectual na vida dos territórios nacionais, e ainda não recuperámos esta dimensão da vida do género que se foi forjando no calor da polémica. É igualmente necessário assinalar o ingente corpus de literatura cómico-séria que se produziu no continente e ao qual se prestou escassa atenção crítica, apesar de ter sido outro dos fatores fundamentais na consolidação do género romanesco. Falta responder que trajetos teve de percorrer, como conviveram no seu interior diversas formas heterogéneas e ambivalentes, bem como o papel que desempenhou a literatura composta na esfera do riso para criar o romance. Num momento de aguda crise económica, ecológica, política e ideológica como a que vivemos atualmente no subcontinente, impõe-se a tarefa de voltar a rever as respostas que o romance tem dado aos dilemas que lhe coloca uma sociedade em constante conflito e como se atualiza.
