DIPLOMACIA CIENTÍFICA, INTERCÂMBIO ACADÉMICO E APROPRIAÇÕES LOCAIS ENTRE A EUROPA, OS ESTADOS UNIDOS E A AMÉRICA LATINA
Ao longo dos séculos XIX e XX, Espanha, França e Estados Unidos desenvolveram na América Latina projetos de influência intelectual e científica intimamente ligados a grandes ideologias transnacionais –o pan-hispanismo, o pan-latinismo e o pan-americanismo– que competiam entre si pela definição do espaço cultural latino-americano e, com ele, pela sua orientação geopolítica. Estes projetos articularam-se através da circulação de intelectuais, académicos e cientistas; da criação de instituições de intermediação cultural; do impulso de revistas, congressos e missões universitárias; e, mais tarde, da consolidação de disciplinas académicas de área –o americanismo, o hispanismo filológico, os Latin American Studies– que não só produziam conhecimento sobre a América Latina, mas também contribuíam, ao mesmo tempo, para legitimar as estratégias de influência dos seus países de origem.
Este simpósio propõe analisar essas dinâmicas a partir de uma perspetiva que atenda tanto aos emissores e às suas lógicas institucionais como aos recetores e às suas estratégias de apropriação, negociação e resistência. Face às abordagens que têm privilegiado um ponto de vista eurocêntrico ou se têm limitado a um destes atores, desconhecendo o contexto de rivalidades geopolíticas, convidamos contribuições que iluminem as relações de poder assimétricas que estruturaram estes intercâmbios ou que abordem a tríade numa perspetiva comparada. O conceito de hierarquias epistémicas –a distribuição desigual do poder para definir o que é conhecimento legítimo, que objetos merecem ser estudados e que vozes estão autorizadas a fazê-lo– é especialmente pertinente para dar conta dos mecanismos através dos quais as potências emissoras não só transmitiam cultura, como contribuíam para configurar os quadros intelectuais com os quais os próprios países latino-americanos se pensavam a si mesmos.
O simpósio acolhe trabalhos que abordem qualquer momento do período compreendido entre meados do século XIX e o fim da Guerra Fria, sem restrição geográfica dentro do espaço latino-americano. Aceitam-se perspetivas de história intelectual, história da ciência e das disciplinas, história cultural e das relações internacionais, bem como abordagens a partir da história latino-americana que privilegiem a perspetiva dos recetores. Convidam-se especialmente propostas que trabalhem casos concretos de mediação, transferência ou contestação, e que contribuam para uma história comparada e conectada das relações intelectuais entre a Europa, os Estados Unidos e a América Latina.
