CATEGORIAS ESTÉTICAS EM TRÂNSITO, IMPORTAÇÃO, RECODIFICAÇÃO E HORIZONTES LOCAIS DE SENSIBILIDADE NAS AMÉRICAS E NO MUNDO LUSÓFONO
A crítica de arte produzida nas Américas e no mundo lusófono construiu o seu repertório teórico em diálogo permanente com categorias estéticas provenientes dos centros europeus e norte-americanos. Naturalismo, formalismo, fenomenologia, semiótica, teoria crítica, pós-modernidade, estudos visuais, viragem decolonial: esse trânsito tem sido e continua a ser condição da escrita sobre arte nestas regiões. Reconhecer essa condição não exige condenar a importação. Exige investigar o que ela produziu, onde funcionou, onde gerou cegueiras estruturais e onde foi reformulada produtivamente.
A hipótese do simpósio é simples mas pouco explorada: as categorias estéticas em trânsito não chegam intactas. Sofrem recodificação ao serem aplicadas a corpos artísticos cujos pressupostos formais, materiais, sociais e cosmológicos não coincidem com os contextos em que tais categorias foram formuladas. O que essa recodificação produz –quando o faz– é um vocabulário híbrido, instável, frequentemente não nomeado, que constitui a originalidade real da crítica de arte periférica. Reconstituí-lo é o objeto deste simpósio.
O recorte temporal e geográfico é amplo de propósito. Acolhe trabalhos sobre os séculos XIX, XX e XXI; sobre o Brasil, a América hispânica, as Caraíbas e o mundo lusófono atlântico (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau); sobre crítica de arte em sentido estrito –textos publicados em jornais, revistas, livros, catálogos– e sobre formas vizinhas: escritos de artistas, manifestos, debates de mesa-redonda, polémicas públicas, crítica em plataformas digitais. Acolhe também investigações que abordem as tradições estéticas locais –afro-diaspóricas, indígenas, populares– como produtoras de categorias próprias, raramente absorvidas pelos vocabulários da crítica institucional.
Cinco perguntas orientam o simpósio. Primeira: como chegaram categorias específicas (autonomia da obra, originalidade, modernismo, vanguarda, objeto, dispositivo, decolonialidade) aos sistemas críticos periféricos, quem as introduziu, em que veículos circularam? Segunda: o que se fez delas –como foram aplicadas, recortadas, deslocadas, contestadas? Terceira: que cegueiras produziram –que objetos artísticos se tornaram ilegíveis ou empobrecidos pela sua aplicação? Quarta: que vocabulários alternativos emergiram, ou poderiam emergir, das categorias de sensibilidade efetivamente operantes nas tradições locais? Quinta: contribuíram para transformações significativas do campo artístico –por exemplo, suscitando a formação de coletivos, redes e associações, ou o surgimento de publicações, certames artísticos, espaços de arte ou outros?
O simpósio procura trabalhos que cruzem disciplinas. A história da arte sozinha não é suficiente. Letras, antropologia, sociologia da cultura, educação estética, estudos das culturas africanas e afro-americanas, estudos indígenas e estudos comparados oferecem ferramentas que a crítica de arte tradicional não produz por si só. Acolhemos investigadores em formação inicial e sénior; comunicações em espanhol, português e inglês; perspetivas a partir de qualquer uma das três Américas e do mundo lusófono atlântico.
Esperamos, no encerramento, ter constituído um mapa preliminar das estratégias críticas inventadas em diferentes sistemas periféricos para lidar com o problema comum da importação. Não procuramos uniformidade de soluções. Procuramos a diferença: o que cada sistema crítico inventou de próprio, que possa ser visto pelos outros como possibilidade.
