MONTAR A REGIÃO: EXPOSIÇÕES E PRÁTICAS CURATORIAIS NA CONSTRUÇÃO GEOPOLÍTICA DA AMÉRICA LATINA, DA AMÉRICA CENTRAL E DAS CARAÍBAS
As exposições, bienais, museus e diversos dispositivos expositivos têm sido espaços centrais na produção de imaginários sobre a América Latina. Retomando as propostas de Tony Bennett sobre a exposição como tecnologia cultural implicada na construção de cidadania e nação, este simpósio propõe deslocar essa discussão rumo à construção, disputa e desestabilização da região a partir das práticas curatoriais. Interessa-nos pensar como, ao longo dos séculos XX e XXI, diferentes dispositivos expositivos não só mostraram arte latino-americana, mas produziram ativamente ideias sobre o que é –ou o que pode ser– «América Latina», «América Central» ou «Caraíbas» dentro do campo artístico internacional.
O simpósio parte de uma pergunta central: de que forma as exposições e circuitos expositivos contribuíram para construir, expandir, fragmentar ou questionar as noções de região na arte latino-americana? Mais do que assumir a «América Latina» como uma categoria estável, interessa analisá-la como uma ficção operativa, uma construção cultural e geopolítica em permanente negociação. Neste sentido, procuramos discutir como certos projetos curatoriais e museográficos reproduziram narrativas hegemónicas sobre a região, enquanto outros abriram leituras críticas capazes de incorporar geografias historicamente marginalizadas como a América Central e as Caraíbas, bem como subjetividades e experiências atravessadas por género, dissidência sexual, racialização, exílio, migração, colonialidade ou violência em todas as suas aceções.
Para além do museu tradicional, propõe-se abordar o dispositivo expositivo como um entramado de práticas discursivas, espaciais e pedagógicas que opera dentro e fora do cubo branco: certames regionais, exposições itinerantes, projetos independentes, programas públicos, arquivos expandidos, museologias comunitárias ou intervenções territoriais.
Interessa-nos particularmente como estes dispositivos produziram formas específicas de mediação, circulação e legitimação cultural, bem como as tensões que emergem entre centro e periferia, internacionalização e localidade, institucionalidade e experimentação.
O simpósio convida a refletir sobre perguntas como:
Como certas exposições produziram noções específicas de «arte latino-americana»?
Que modelos de região construíram as bienais, museus e circuitos curatoriais do continente?
Que lugares ocuparam –ou ficaram fora– a América Central e as Caraíbas nessas narrativas?
Como determinados dispositivos expositivos questionaram leituras patriarcais, coloniais ou heteronormativas sobre a região?
Que formas de subjetividade política e cultural tornaram visíveis estas exposições?
Que estratégias museográficas e pedagógicas permitiram transbordar o modelo tradicional do cubo branco?
Como a mediação, o arquivo ou a arquitetura expositiva participaram ativamente no argumento curatorial?
Quando funciona uma exposição como espaço de representação e quando como espaço de disputa?
Convidam-se especialmente propostas que abordem: dispositivos expositivos como produção de epistemologias situadas; museografia, mediação e pedagogias curatoriais como dispositivos discursivos; bienais, certames e circuitos alternativos de exibição; arquivos, reconstruções e memórias expositivas; disputas sobre a construção do latino-americano, das Caraíbas e do espaço centro-americano; circulação transregional e geopolíticas curatoriais; relações entre exposição, território, comunidade e espaço público; projetos experimentais que transbordem as lógicas tradicionais do museu e do cubo branco.
Em diálogo com os eixos do 59.º ICA, este simpósio propõe pensar os dispositivos expositivos como tecnologias culturais capazes de produzir memória, conhecimento e região, ou seja, espaços onde se negoceiam relatos históricos e formas de imaginar a América Latina.
