A AMÉRICA LATINA COMO LUGAR DE TEORIA URBANA: GEO-HISTÓRIA DAS MARGENS PARA IMAGINAR O FUTURO DAS CIDADES
Nomear uma favela, uma vila ou um assentamento como informal, subnormal, irregular ou de risco já é uma forma de intervir sobre esse território: a categoria decide que história se arquiva, que intervenção se legitima, que formas de habitar ficam fora do relato oficial da cidade. Este simpósio quer tratar as margens urbanas das cidades latino-americanas como um lugar de produção teórica, e não apenas como objeto de política pública.
A discussão sobre as margens do Estado, aberta por Veena Das e Deborah Poole ao mostrarem que a ilegibilidade estatal é em si mesma uma forma de governo, e retomada por James Ferguson ao pensar a espacialização do Estado como um processo sempre incompleto e desigual, ajuda-nos a pensar para além das categorias de informalidade e periferia com que se tem lido historicamente a cidade latino-americana. Nestes fragmentos de cidade sem estatuto de cidade, como lhes chama Maria Cristina Cravino, encontra-se também o caminho traçado por Licia Valladares, Mauricio de Abreu ou Rafael Soares Gonçalves ao historicizar a própria construção da favela carioca como objeto de conhecimento. Por sua vez, César González chama a esses territórios, em trabalhos recentes, territórios de interseção: zonas onde se cruzam temporalidades, legalidades e formas de habitar que nenhuma categoria administrativa consegue captar por completo.
O nosso método é a geo-história de Fernand Braudel, que na obra de Alain Musset sobre as cidades latino-americanas se torna ponte para as cidades que ainda não existem: olhar o longo passado de um território para imaginar, quase como ficção, a cidade que ainda não pode ser.
Convocamos trabalhos que partam de uma investigação empírica concreta –um arquivo, uma cartografia, uma série de entrevistas, uma etnografia do bairro– e que, a partir daí, contribuam para imaginar as cidades do futuro. Interessam-nos as margens em geral, para além da sua relação com o Estado: a produção popular do habitat, as alternativas à crise climática pensadas a partir da justiça socioambiental, as resistências quotidianas e as lutas urbanas de longa duração, as novas formas de organização comunitária, as alianças entre bairros, universidades e movimentos, e as formas de conhecimento que se produzem a partir dos próprios territórios e não apenas sobre eles. Queremos ler aí as tensões entre o que se intervém e o que se resiste, entre o que o Estado nomeia e o que os bairros já sabem de si mesmos.
Este simpósio inscreve-se no espírito do lema desta edição do ICA, «tradição e inovação: as memórias das Américas». Convidamo-los a trazer os seus próprios bairros, os seus próprios arquivos, as suas próprias perguntas inacabadas: queremos que essas memórias continuem a construir, já hoje, os futuros da cidade latino-americana, e com eles, uma teoria urbana que fale a partir da América Latina e não apenas sobre ela.
