TURISMO, TRABALHO E RELIGIÃO: ENTRE A TRADIÇÃO E A INOVAÇÃO
A antropologia do turismo tem mostrado que as práticas turísticas não podem reduzir-se unicamente ao deslocamento ou ao consumo de destinos, mas constituem cenários complexos de produção cultural, negociação identitária e circulação global de imaginários (Appadurai, 1996; Bauman, 2004). Desde os trabalhos pioneiros de Dean MacCannell (1976) e Valene Smith (1977) até Santana e Prats (2005) e Magali Paz et al. (2024), as discussões contemporâneas sobre patrimonialização, extrativismo cultural e mercantilização da experiência, o turismo consolidou-se como um campo estratégico para compreender as tensões entre tradição e modernidade. Na América Latina, estes debates adquirem uma relevância particular devido à expansão do turismo comunitário, étnico e espiritual, bem como pelas disputas em torno do território, da autenticidade e das economias culturais. A mesa procura reunir investigações que explorem o turismo como fenómeno social total, atendendo às suas dimensões simbólicas, políticas, económicas e culturais.
Num contexto onde o turismo aparece cada vez mais como promessa de desenvolvimento, crescimento económico e transformação do território, é importante perguntarmo-nos pelas formas de trabalho, desigualdade e conflito que emergem por trás desta indústria. Esta mesa abre um espaço de discussão sobre as relações entre turismo, precarização laboral, extrativismo, territorialidades e reconfiguração das economias locais. Aceitam-se trabalhos que explorem a precarização, flexibilização e emocionalização do emprego em economias orientadas para o serviço e a experiência sobre o turismo. Para além das narrativas celebratórias do turismo, procuramos pensar etnograficamente como esta atividade redefine as relações capital-trabalho, transforma as formas de vida e reorganiza as disputas simbólicas e materiais na América Latina.
A relação entre turismo e religião ganhou especial importância no contexto das transformações espirituais contemporâneas e da crescente circulação global de práticas rituais, peregrinações e experiências de bem-estar. Os espaços religiosos tornaram-se simultaneamente lugares de devoção, património cultural e consumo turístico, gerando tensões entre sacralidade, mercado e espetáculo. Peregrinações, festas patronais, rotas espirituais e formas alternativas de religiosidade mostram como o religioso continua a reorganizar mobilidades, economias e formas de sociabilidade. Estas dinâmicas expressam-se tanto na revitalização de tradições indígenas e afrodescendentes como na expansão de espiritualidades terapêuticas e práticas de turismo espiritual secularizadas. A mesa propõe refletir sobre as múltiplas articulações entre religião e turismo, atendendo às disputas pelo sentido, a autenticidade e o uso económico do sagrado.
Aceitam-se trabalhos teóricos, etnográficos e comparativos sobre as seguintes linhas.
* Antropologia do turismo e patrimonialização cultural.
* Turismo comunitário, étnico e rural.
* Trabalho turístico, precarização e economias do serviço.
* Plataformas digitais, mobilidade e novas formas de emprego turístico.
* Turismo espiritual, peregrinações e mobilidades religiosas.
* Religião, património e mercantilização do sagrado.
* Territorialidades, extrativismo e conflitos socioculturais decorrentes do turismo.
* Turismo cultural, memória e identidades locais.
* Turismo em contexto de desastres e outras formas de dark tourism.
* Turismo, afetividade e produção de subjetividades.
* Nomadismo cultural, espiritualidades contemporâneas e economias do bem-estar.
* A turistificação e gentrificação em cidades intermédias.
