RELATO DE FILIAÇÃO, MEMÓRIA E TRANSMISSÃO NA LITERATURA LATINO-AMERICANA
Durante as últimas décadas, o relato de filiação consolidou-se como uma das formas narrativas mais significativas da literatura latino-americana. Através de vínculos familiares, genealogias incompletas, heranças traumáticas e memórias intergeracionais, numerosos textos têm interrogado a relação entre subjetividade, história e transmissão. Neles, a busca de pais, mães, avós ou antepassados não responde apenas a uma necessidade íntima de reconstrução identitária, mas está ligada a processos históricos mais amplos: ditaduras, exílios, migrações, desaparecimentos e silêncios familiares.
O relato de filiação coloca, assim, uma questão central sobre as formas como o passado se transmite, se oculta ou se reinventa no presente. Ao contrário de uma autobiografia centrada exclusivamente no eu, estas narrativas costumam construir a identidade do sujeito a partir de uma investigação sobre outros: figuras familiares ausentes, linhagens interrompidas, arquivos fragmentários, fotografias, cartas, testemunhos ou vestígios materiais. A escrita torna-se, deste modo, uma prática de indagação, mas também de luto, reparação ou confronto com aquilo que não pôde ser dito por gerações anteriores.
No contexto latino-americano, esta modalidade narrativa adquire uma densidade particular. Dialoga com tradições como a literatura testemunhal, a autoficção, a crónica, a narrativa do exílio ou as escritas do luto. Ao mesmo tempo, desloca as formas de narrar a história: já não se trata necessariamente de reconstruir grandes relatos nacionais ou coletivos, mas de examinar como os processos históricos se inscrevem em corpos, apelidos, silêncios domésticos, álbuns familiares e memórias íntimas.
Partindo destas questões, este simpósio propõe-se refletir sobre o relato de filiação na literatura latino-americana dos séculos XX e XXI. Convida-se à apresentação de propostas que abordem, entre outras, as seguintes perguntas: o que entendemos por relato de filiação no contexto latino-americano? Como se relaciona com a autobiografia, a autoficção, o romance familiar, o testemunho, a crónica ou a literatura documental? Que papel desempenham o arquivo, a fotografia, a carta ou o testemunho oral na construção destes relatos? De que forma elaboram a transmissão intergeracional da violência política, do exílio, do desaparecimento, da migração ou da exclusão social? Como representam os silêncios familiares e as lacunas da memória?
Interessa também examinar as dimensões afetivas, éticas e políticas destas escritas: as formas do luto, da culpa, da vergonha, da nostalgia, da raiva ou da reparação; a posição do narrador perante os seus antepassados; e os problemas éticos que coloca escrever sobre os outros ou converter uma história familiar em matéria literária.
Aceitam-se tanto estudos comparativos como estudos de caso centrados em autores, obras, tradições nacionais ou corpus transnacionais. Serão especialmente bem-vindas as propostas que examinem o relato de filiação em relação com a memória histórica, os arquivos familiares, a transmissão do trauma, as políticas da identidade, as formas contemporâneas
