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INTERSTÍCIOS DIGITAIS: DO ARQUIVO À CRIAÇÃO NAS HUMANIDADES: EDIÇÃO, PRÁTICAS DISCIPLINARES, ENSINO E CRÍTICA LITERÁRIA E CULTURAL

As humanidades digitais transformaram profundamente a relação que as disciplinas humanísticas mantêm com os seus objetos de estudo. O arquivo já não é apenas um repositório de fontes que precede a interpretação, mas um espaço de mediação -técnica, política e epistemológica- onde os dados, antes de se tornarem evidência, atravessam processos de seleção, classificação e representação que merecem ser interrogados. Este simpósio propõe pensar as humanidades nas Américas a partir desses interstícios: os espaços entre o arquivo e o dado, entre a fonte e a sua edição, entre a prática disciplinar e a criação, que a transformação digital tornou visíveis e urgentes.
Partimos de uma questão central: o que acontece ao conhecimento humanístico quando as suas condições materiais de produção, circulação e ensino são mediadas pelo digital? Esta questão desdobra-se em várias frentes que organizam o simpósio. Em primeiro lugar, os arquivos e os dados, entendidos não como insumos neutros, mas como construções que exigem uma crítica dos seus próprios interstícios: o que se seleciona, o que se omite, o que se torna legível para uma máquina e o que se perde nessa tradução. Em segundo lugar, a edição, que na sua versão digital reconfigura as noções de autoria, variante textual e mediação editorial, abrindo novas possibilidades, mas também novos dilemas para quem edita textos, catálogos ou coleções em contextos latino-americanos.
O simpósio acolhe, ainda, reflexões situadas nas práticas disciplinares da literatura, da filologia e da história, atendendo a como estes campos incorporaram -ou resistiram a- as ferramentas e lógicas digitais sem perder a sua especificidade metodológica. A isto soma-se a investigação-criação, entendida como um modo de produção de conhecimento que articula o crítico e o artístico, e que encontra no digital novos suportes, linguagens e formas de circulação para a experimentação estética e concetual.
Um eixo não menos importante é o do ensino e da formação: como se formam hoje os leitores, investigadores e editores que trabalharão com estas novas mediações digitais? As salas de aula, os currículos e as pedagogias humanísticas enfrentam o desafio de integrar competências digitais sem reduzir a formação a uma gestão instrumental de ferramentas. Por fim, o simpósio convoca a crítica literária, convidando-a a repensar as suas categorias e métodos face a corpus massivos, trabalho em redes académicas e culturais, edições digitais e novas formas de circulação textual que desafiam os seus quadros tradicionais de leitura e interpretação.

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