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PERIFERIAS E MARGINALIDADES. REPRESENTAÇÕES, CLASSIFICAÇÃO E CONSTRUÇÃO DA ORDEM SOCIAL NAS SOCIEDADES INDÍGENAS COLONIAIS DA AMÉRICA LATINA (SÉC. XVI-XVII)

Durante os séculos XVI e XVII, as sociedades indígenas da América colonial (salvo algumas exceções) sofreram uma espécie de movimento centrífugo, a partir do qual se formaram círculos concêntricos. Neles, as relações de poder, refletidas no género, no étnico, no político e no económico, determinavam a aproximação ou o afastamento do centro. Assim, as periferias serviram como instrumento para classificar as pessoas, e através desses juízos consolidaram-se as ideias em torno do perigoso, do indigno, do desviante.
A presente mesa pretende reunir trabalhos dedicados à análise destas «personagens periféricas» nas sociedades indígenas –pobres, prostitutas, pessoas escravizadas, forasteiros, especialistas rituais, acusados de idolatria ou feitiçaria, órfãos, doentes, etc.– com o fim de compreender com maior profundidade a construção de narrativas da ordem social e colonial.
Embora muitos destes atores apareçam de forma recorrente nas fontes e na historiografia, raramente constituem o objeto principal de análise. Esta mesa propõe repensá-los como categorias históricas cuja definição permite compreender as formas como as sociedades indígenas coloniais estabeleceram os limites da diferença e da pertença. A natureza fragmentária das fontes tem dificultado a reconstrução das trajetórias de muitos destes sujeitos históricos, que frequentemente aparecem subordinados a problemáticas mais amplas. Um dos objetivos desta mesa é servir de fórum onde se partilhem experiências de trabalho em torno das problemáticas, possibilidades e limitações das fontes coloniais. A abordagem comparativa entre casos latino-americanos privilegia a busca de padrões, continuidades, ruturas e particularidades.
A mesa procura também abrir um espaço de discussão sobre as possibilidades e os limites que as fontes coloniais oferecem para aproximar-se destas dinâmicas, entendendo que essas fontes fizeram parte dos mecanismos através dos quais estas categorias foram construídas, definidas e difundidas. Serão recebidos trabalhos que proponham novas leituras de fontes históricas, bem como investigações baseadas em documentos escritos em línguas indígenas e em traduções críticas.
Estudar as marginalidades ajuda a compreender como a produção histórica da diferença constituiu um mecanismo fundamental para organizar as sociedades indígenas durante o período colonial, e quais foram as implicações dessas representações na configuração das comunidades, nas dinâmicas sociais e nas formas quotidianas de exercer o poder –político, económico, religioso, étnico e de género–.
Por fim, consideramos que um espaço desta natureza permitirá não só trocar pontos de vista diversos e leituras inovadoras, mas também ajudará a compreender o devir das comunidades indígenas no território latino-americano. Embora isto não implique uma invariabilidade histórica, servirá como uma pequena janela para observar as marcas que a ordem colonial deixou.

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