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O ARQUIVO COSMOGRÁFICO E AS SUAS FORMAS: NARRATIVAS, ARTE E AÇÃO POLÍTICA NA AMÉRICA LATINA

Quais são as formas do arquivo que se produzem na América Latina quando diferentes dimensões da experiência –como a memória, o território ou os corpos– se entrelaçam numa mesma trama de sentido? As cosmografias respondem a essa questão atendendo ao modo como certas práticas culturais representam, reordenam e projetam a complexidade das vidas, materialidades e memórias que configuram um mundo partilhado.

Como o seu nome indica, o arquivo cosmográfico remete para a representação do cosmos e, sobretudo, para o traçado das suas associações, danos, disputas e possibilidades de re-existência a partir de agenciamentos desiguais e contingentes. Uma composição relacional e conflitual entre modos de habitar, recordar, resistir e imaginar, sedimentada por linguagens, narrativas, estéticas e práticas políticas pós-humanas e pós-antropocêntricas orientadas para desarticular as estruturas de cisão que moldam os nossos horizontes de sentido: humano|não humano, razão|matéria, bios|zoe, res cogitans|res extensa. A sua latência pode ser rastreada em algumas mitologias, com as suas ideias de cosmos heterogerados, interdependentes e cíclicos; no pensamento organicista e nas suas filosofias da unidade, tão caras a certos imaginários andinos e ao romantismo europeu; no pensamento ecológico e nas teorias da complexidade, que insistiram na interdependência, na não linearidade e nos efeitos de escala; e em algumas derivas ontológicas que deslocam a nossa atenção para outros corpos e materialidades.

Com essa perspetiva em mente, convidamos à apresentação de análises de obras literárias, visuais, audiovisuais, performativas, digitais, comunitárias e políticas que possam ler-se como expressões do arquivo cosmográfico. Interessam-nos especialmente as propostas que deslocam o privilégio do humano como eixo de inteligibilidade para se ocuparem, em vez disso, dos vínculos interespécies, dos territórios feridos, das ecologias em crise, dos saberes indígenas e afrodescendentes, das práticas feministas, dos arquivos comunitários e da imaginação política, bem como das mediações, fricções, traduções parciais, dependências e conveniências que articulam esses campos.

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