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MÚSICA POPULAR & POLÍTICA

Múltiplos são os laços existentes entre a música popular e a política. Este simpósio é guiado pelo propósito de estender ao máximo o arco temático que abrange essas relações, com vista a dar lugar ao alargamento concetual do que se entende por política.
Na tradição estabelecida no âmbito das Ciências Sociais desde o século XIX, pensou-se o domínio da política como inexoravelmente ligado ao Estado ou a tudo o que o tinha como ponto de referência. Novos ventos sopraram nessa área, especialmente a partir dos anos 1960. O seu centro simbólico fundamental –embora não exclusivo– foi o maio de 1968 em França. Cada vez mais se tornou patente que não havia uma estreita sinonímia entre Estado e política, com o argumento de que esta não se concentra num ponto fixo, mas se manifesta, através de díspares relações de poder, por todos os poros da vida social. Por isso ganhou força a noção de «circularidade do poder» (Foucault), na sua disseminação capilar, sobre o entendimento de que este não é suscetível de apropriação exclusiva por parte de um indivíduo ou determinados grupos ou classes sociais, por mais que –num mundo marcado pela desigualdade económico-social– seja preponderante uma repartição assimétrica das reservas de poder.
No âmbito dessa viragem teórica, alargam-se as perspetivas das imbricações entre a música popular e a política. Sem nos atermos necessariamente aos confins da macropolítica, abre-se caminho para a incorporação de uma agenda de investigações ligadas à multiplicidade de expressões das relações de poder, incluídas as associadas à micropolítica (Guattari).
Por essa via, albergam-se sob o guarda-chuva da política temáticas que remetem para o plano comportamental, a performances contrastantes, aos mais distintos campos de disputas e competições que se demonstram através da adoção de linguagens musicais variadas e que incluem desde os processos de produção, as embalagens dos arranjos das composições, até aspetos visuais cada vez mais chamativos nas apresentações artísticas. Assim, alarga-se consideravelmente a escala de observação e análise dos artefactos musicais, como se não bastasse o facto de os estudos sobre música popular, pela sua própria natureza, competirem para a afirmação de um olhar inter|multidisciplinar. Nesse contexto, oferecem pistas para a análise da realidade político-social em que se situam, servindo como fontes documentais e testemunhas do seu tempo histórico, ligando-se cada vez mais a temas associados a questões raciais, de classe e de género, numa época em que, na América Latina, se afirmam as abordagens interseccionais e decoloniais.
Seja como for, não deve perder-se de vista que, ao circular socialmente, uma canção frequentemente adquire significados que evidenciam a condição de sujeitos –e não de meros recetores passivos– dos consumidores (Certeau). No final, estes atuam sempre como seres políticos ao ponto de poderem inclusivamente subverter o que se supunha ser o sentido original de uma obra musical.

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