INVESTIGAÇÃO-AÇÃO PARTICIPATIVA, INTERCULTURALIDADE E POVOS INDÍGENAS DA AMÉRICA | ABYA YALA
Num contexto de abordagens metodológicas desfocadas e ambíguas, onde prevalece a retórica da “cooperação”, transformando as práticas de investigação em formas de extrativismo epistémico, especialmente em comunidades indígenas e interculturais, propomo-nos abordar questionamentos críticos, ético-políticos e epistemológicos acerca da abordagem à investigação, em oposição aos paradigmas cientificistas e eurocêntricos de produção de conhecimento, em consonância com perspetivas descoloniais em investigação (Tuhiwai Smith, 2016), mas também anticoloniais, incorporando, em particular, a Declaração de Barbados (1971) como documento histórico no qual os antropólogos denunciam o etnocídio e o genocídio de povos indígenas no nosso continente, ao mesmo tempo que exigem a descolonização da antropologia, o reconhecimento da autodeterminação e do território indígena.
Abordaremos a Investigação-Ação Participativa (IAP), com o seu legado e tradição, impulsionada desde 1960 (Fals Borda, 1981; Freire, 1969, 1970, 1992, 1996, 1997; Brandão, 2016). Esta abordagem metodológica não se constitui como um modelo de metodologia replicável nos territórios; segundo os seus fundadores, representa antes uma proposta relevante para a construção de conhecimento de forma democrática e consciente, baseada no diálogo de saberes e no trabalho comunitário conjunto, ou seja, com, a partir de e para as comunidades.
Nos territórios pertencentes a povos indígenas e nos processos de interculturalidade, a IAP configura-se como uma via particularmente pertinente para promover, na academia e noutros espaços da territorialidade, formas de investigação comunitárias e cooperativas com potencial transformador, reafirmando a tradição histórica e o enraizamento territorial pertinentes, em conformidade com os princípios ético-políticos que regem a IAP desde o seu início. A IAP, a interculturalidade e os povos indígenas exigem níveis de propostas participativas em que os diversos atores sociais — profissionais, académicos, educadores e cientistas — assumam papéis protagonistas: como abordá-los? Quais são os desafios para a participação ativa dos diversos atores na sociedade?
Este simpósio destina-se a académicos, estudantes de licenciatura e pós-graduação, autores de teses, profissionais, docentes, investigadores, organizações sociais, coletivos diversos, agrupamentos, artistas, comunidades e atores socioculturais que procuram gerar um espaço de intercâmbio e reflexão para contribuir, a partir da IAP, junto das culturas originárias na América Latina e em Abya Yala.
Serão recebidas comunicações que relatem experiências de investigações IAP avançadas ou concluídas, nas quais possam apresentar os seus resultados, permitindo contribuir para a reflexão e o intercâmbio profundo através de diálogos de saberes. Propõe-se uma dinâmica aberta, lúdica e democrática de participação. Procura-se estreitar laços fraternos com os investigadores e as investigadoras que se desafiem a partilhar os seus trabalhos e a colocá-los em circulação.
