INTERSEÇÕES DO CAPITALISMO: TRANSFORMAÇÕES, DESIGUALDADES, VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS A PARTIR DO SUL GLOBAL
O simpósio propõe pensar e debater, em chave interdisciplinar, problemas do passado e do presente a partir do sul global. Para tal, partimos de uma perspetiva de longa duração que entende os conflitos do capitalismo, do patriarcado e do colonialismo não como fenómenos separados, mas como estruturas que se constituem mutuamente e se expressam de forma sistemática e quotidiana (Lander, 2016). O nosso ponto de partida é a expansão capitalista do último quartel do século XIX, quando as sociedades latino-americanas se transformaram abruptamente. A integração da América Latina nos mercados internacionais, através da exportação de matérias-primas, implicou a articulação de zonas periféricas com os centros de acumulação, obrigando os Estados latino-americanos a promover o desenvolvimento económico e a reorganizar as suas estruturas estatais (Topik e Wells, 1998). Este processo deu origem a um conjunto de práticas e discursos que reproduziram formas coloniais que se transformaram ao longo do século XX e que persistem no âmbito do capitalismo neoliberal contemporâneo.
Este processo de expansão capitalista|neoliberal e reconfiguração estatal teve expressões específicas no Sul Global, quando os estados nacionais fizeram uma incorporação forçada através da violência e do despojo; a colonização de territórios ancestrais e a instalação de enclaves económicos (madeireiros, pecuários, cerealíferos, entre outros) durante finais do século XIX e inícios do XX. Isto lançou as bases de um modelo extrativo que persiste, sob novas formas, até ao presente.
Sustentamos que estes conflitos não podem ser compreendidos de forma fragmentada. O extrativismo não é apenas um modelo económico, mas também uma forma de organização do espaço, do tempo e dos corpos, que se articula estruturalmente com o patriarcado e o colonialismo. As comunidades mais afetadas pelo despojo territorial e pela degradação ambiental são, frequentemente, comunidades feminizadas, indígenas e rurais, que assumem os encargos do cuidado dos corpos e dos ecossistemas. Na América Latina, são precisamente as organizações lideradas por mulheres indígenas, camponesas, afrodescendentes e mestiças que encabeçam as resistências ao extrativismo e coproduzem formas de fazer política a partir de outros lugares (Arriagada Oyarzún et al., 2026). Este simpósio propõe abordar esta complexidade a partir de uma perspetiva interdisciplinar que articule as Humanidades, as Artes, as Ciências Sociais e os territórios e comunidades afetados por desigualdades múltiplas e espacializadas. Convidamos investigadores, ativistas, estudantes de licenciatura e pós-graduação e coletividades interessadas a partilhar esta conversa e a articular novas perguntas e perspetivas em torno dos desafios do sul global.
