IMPLICAÇÕES DA DIGITALIZAÇÃO E FINANCEIRIZAÇÃO DOS TERRITÓRIOS LATINO-AMERICANOS: ABORDAGENS A PARTIR DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Na fase atual da globalização, as sucessivas modernizações técnicas e organizacionais transformam as possibilidades e condições históricas do uso dos territórios latino-americanos. A presença de diferentes atores sociais implica relações de poder desiguais, bem como assimetrias entre os lugares (Massey, 2007).
As corporações transnacionais estão cada vez mais presentes nos territórios, e os investimentos realizados criam e reestruturam numerosas redes geográficas, principalmente as redes urbanas. O desenvolvimento à escala global da acumulação capitalista implica a instalação e expansão de sistemas técnicos no território que reorganizam as redes urbanas e os territórios rurais em função das dinâmicas regionais e globais, com impactos ambientais significativos relativamente ao uso dos bens comuns nos lugares.
Na América Latina, os sistemas técnicos instalados foram concebidos para facilitar a circulação de mercadorias, dinheiro e informação, embora em função das exigências hegemónicas da divisão internacional do trabalho. Atualmente, esses processos caracterizam-se pelo domínio da informação e por um protagonismo crescente das finanças, que se impõem como «variável ascendente, determinante e dominante da vida social e económica» (Silveira, 2020).
Na base do chamado capitalismo digital (Schiller, 1999) ou capitalismo de plataformas (Srnicek, 2017) está presente a difusão desigual, nos lugares, daquilo que Santos (2000) identificou como o meio técnico-científico-informacional. Trata-se da expressão geográfica da globalização, sustentada pelos avanços da robótica, das telecomunicações, das redes financeiras e da internet e, mais recentemente, do desenvolvimento da inteligência artificial.
Estas tendências gerais ligadas a novas formas de conexão e tecnologias em rede fazem parte do que Arroyo (2021) denominou o processo de digitalização do território. Estas explicam-se pelas infraestruturas físicas e objetos técnicos tais como: cabos submarinos, computadores e telemóveis inteligentes com acesso à internet, antenas de telefonia e, certamente, os centros de dados que constituem o «motor» destas funcionalidades contemporâneas da vida quotidiana.
Como resultado do que precede, começam a colocar-se novos debates sobre os usos da IA e a digitalização da vida, bem como os seus impactos ambientais e territoriais, pois aquilo que antes se percecionava como um fenómeno intangível quando falávamos da «nuvem», agora torna-se visível e sabemos que funciona graças a uma grande infraestrutura que está a transformar os territórios onde se instala.
O objetivo deste simpósio é analisar e problematizar o surgimento de novas formas de uso dos territórios a partir da financeirização e digitalização da vida que as próprias empresas transnacionais criaram como mais uma forma de acumulação (Harvey, 1990). Com isto surgem novas práticas de açambarcamento e despojo territorial que é de suma importância identificar.
Por conseguinte, consideramos que, a partir das Ciências Sociais e da Geografia, se pode contribuir significativamente para a compreensão dos fenómenos contemporâneos. Neste sentido, queremos conhecer as diferentes perspetivas teóricas e metodológicas a partir das quais se estão a estudar tais fenómenos.
