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EXPLOSÕES LATINO-AMERICANAS: EMOÇÕES POLÍTICAS, MULTIDÕES E VIOLÊNCIA COLETIVA EM PERSPETIVA COMPARADA

Desde o final da segunda década do século XXI, a América Latina tem sido palco de uma inusitada onda de mobilizações sociais de elevada intensidade: a explosão chilena de outubro de 2019, os protestos colombianos de 2019 e 2021, as mobilizações venezuelanas, equatorianas e peruanas, entre outros episódios que abalaram os sistemas políticos da região. Estes fenómenos desafiam os quadros explicativos convencionais da ciência política e da sociologia, que têm tendido a privilegiar variáveis estruturais –desigualdade, crise de representação, esgotamento do ciclo progressista– em detrimento de uma dimensão igualmente decisiva: a das emoções políticas e da psicologia das multidões.

Este simpósio propõe abrir um diálogo interdisciplinar e comparado sobre as explosões latino-americanas a partir de uma perspetiva que integra a teoria política, a psicologia política e os estudos da violência coletiva. A sua premissa é que, para compreender estes fenómenos, é indispensável atender não só aos seus condicionantes estruturais, mas também às dinâmicas afetivas –indignação, medo, vergonha, euforia coletiva– que mobilizam as multidões, transformam o espaço público e, em determinadas condições, desembocam em episódios de violência política.

O simpósio articulará três eixos analíticos. Primeiro, a gramática emocional das explosões: que emoções predominam nas mobilizações latino-americanas contemporâneas e como se organizam coletivamente? Que papel desempenham a ofensa moral, a humilhação social e a esperança na emergência da ação coletiva? Segundo, a fenomenologia da multidão: recuperando a tradição de Le Bon, Canetti, Tarde e os desenvolvimentos contemporâneos da psicologia de massas –incluindo os estudos sobre identidade social elaborada (ESIM) e as investigações recentes sobre conduta coletiva–, analisar-se-á como se constituem, se sustentam e se dissolvem as multidões políticas em contextos latino-americanos. Terceiro, a relação entre protesto e violência: em que condições a mobilização social se transforma em violência coletiva? Como interagem os repertórios de ação, a resposta estatal e as emoções partilhadas na produção ou inibição da violência política?

O simpósio convoca comunicações que abordem casos nacionais ou comparados, análises teóricas e revisões metodológicas, incluindo abordagens etnográficas, experimentais e de análise do discurso. Aspira-se a construir uma agenda latino-americanista que dialogue criticamente com os desenvolvimentos da psicologia de multidões europeia e anglo-saxónica, contribuindo assim para uma teoria política das explosões enraizada nas memórias e experiências próprias das Américas.

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