EMPODERAMENTO FEMININO, GEOPOLÍTICA DOS DIREITOS HUMANOS E INFORMAÇÃO
A escalada nos índices de violência de toda a sorte contra as mulheres não é algo local. Pelo contrário. Trata-se de um fenómeno global, naturalizado, silenciado e democrático, uma vez que atinge mulheres de todas as classes sociais, idade, raça, apresentando uma interseccionalidade sem igual, embora revelando o já esperado: as mais impactadas são as mulheres pobres, negras, com baixa escolaridade e, em muitos casos, com algum tipo de deficiência.
No Brasil, em Espanha, na Colômbia, os números crescem. A violência contra as mulheres não é tímida nem nos países considerados mais avançados, evidenciando que o patriarcado é uma estrutura de poder que continua fortalecida.
Relaciona-se diretamente com o crescimento da direita e extrema-direita que tenta desacreditar a luta das mulheres pela equidade de género. Nisto incluem-se os discursos de ódio, as fake news e o crescente movimento «red pill» de homens que defende a «masculinidade dominante», fomentando ainda mais a narrativa de coisificação de corpos e almas femininas.
O cenário de guerras instaladas no Médio Oriente, no leste europeu e nas intervenções norte-americanas em países da América Latina como Cuba e a Venezuela impõem mais um sacrifício às mulheres, protegidas pelo Direito Internacional Humanitário, como o de proteger a si mesmas e às suas famílias. Nestes contextos, mulheres e meninas ficam ainda mais vulneráveis e suscetíveis à violência.
A luta no campo académico-científico não é diferente. As mulheres precisam, a todo o momento, de provar a sua qualificação, produção e resultados na tentativa de minimizar o confronto e a discriminação de género na ciência. Neste contexto, a informação torna-se um aliado potente para o empoderamento feminino.
A crescente manifestação de ódio e a tentativa de reconduzir novamente as mulheres a um lugar de submissão fazem-nos recordar uma afirmação de Simone de Beauvoir, bastante conhecida, mas nunca esvaziada de sentido e importância: «Basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos nunca são adquiridos. Ter-se-á de permanecer vigilante durante toda a vida» (BEAUVOIR, 1974 apud MONTEIL, 2008, p. 39).
Neste sentido, a proposta deste simpósio é reunir investigações e reflexões de estudiosos sobre este fenómeno e discutir amplamente a partir de experiências que dialoguem com o contexto latino-americano e sul-sul. Torna-se necessário fomentar mais espaços coletivos de análise desta ocorrência universal, para que possamos, juntos, procurar novas formas de a travar.
Por isso, a aderência à terceira linha temática do 59.º ICA, «Sempre Passado», a qual «nos permite entender que as sociedades são construídas com base na herança das suas histórias. A memória histórica, as lutas pela identidade e a persistência das diferenças sociais são questões atuais nos discursos do século XXI».
