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CONVOCAR O PASSADO: MEMÓRIA COLETIVA, CONFLITO E CONSTRUÇÃO DE PAZ NAS AMÉRICAS

No contexto latino-americano, os povos que incidem no espaço público com a intenção de transformar o presente não o fazem de mãos vazias, armam-se com imagens, personagens e sons do passado. Este simpósio, inscrito na área de Cultura de Paz e Conflito e em diálogo com o campo dos Direitos Humanos e da ação coletiva, interroga-se sobre a articulação entre os processos de memória coletiva, as diversas práticas de resistência e a construção de paz em contextos de conflitos violentos. Interessa-nos, em particular, o papel da memória na abordagem dos conflitos, como se recorda a violência e como isso condiciona a forma como as sociedades a enfrentam e a superam.
Entendemos por memória uma prática social, política e cultural, que se faz e se ativa no presente para imaginar futuros possíveis. Recordar define e modifica o campo do possível, e por isso nunca é neutro: pode subverter as relações de poder ou perpetuá-las. Sustentamos que se torna resistência na medida em que consegue tensionar as versões hegemónicas do passado e a sua articulação com o presente. Frequentemente, estas resistências operam a partir das margens, inclusive de forma subterrânea: constroem alternativas e, ao fazê-lo, corroem e desviam os processos hegemónicos, sustentam a vida e permitem ultrapassar o medo como instrumento de controlo social do capitalismo tardio. Em contextos atravessados pela violência, a memória é ainda um recurso para transformar os conflitos e construir culturas de paz: sustenta as exigências de verdade, justiça, reparação e não repetição, e constrói condições para a convivência.
O simpósio convoca contributos interdisciplinares em torno de quatro eixos: (1) resistências comunitárias, territoriais e memórias coletivas de comunidades indígenas, afrodescendentes, camponesas, ativismos socioambientais, LGBTIQ+ e movimentos sociais face ao despojo, à exclusão e em defesa da vida e do território; (2) violências sociopolíticas, lutas políticas e abordagens críticas perante o avanço das ultradireitas, dos autoritarismos, da militarização e das desigualdades estruturais; (3) arte, memória e política: a potência sensível e afetiva de dispositivos visuais, performáticos, audiovisuais e memoriais para a escuta, a transmissão, o arquivo e a denúncia; (4) memória e revoltas populares atuais: o papel das memórias coletivas nos levantamentos, protestos e mobilizações recentes, onde os movimentos convocam figuras, símbolos e repertórios do passado para tensionar os relatos oficiais, disputar o campo do possível e projetar horizontes de justiça e paz; e (5) Violações dos direitos humanos e justiça transicional: processos de verdade, reparação, exumações, comissões e tribunais, juntamente com os arquivos, testemunhos e contranarrativas que documentam o ocorrido.
Atravessam todas as linhas duas preocupações partilhadas: uma abordagem de direitos humanos e metodologias colaborativas; e uma ética situada, atenta às assimetrias de poder e respeitadora dos saberes e das memórias comunitárias.
Convidamo-los a perguntarem-se como o passado se torna força para transformar o presente e como, entre tradição e inovação, as memórias americanas podem abordar os conflitos e fundar horizontes de justiça e paz.

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