DIPLOMACIA PATRIMONIAL: ESTUDOS DE CASO NA AMÉRICA LATINA
O campo da diplomacia patrimonial é ainda pouco conhecido. Em termos comparativos, observa-se que, na América Latina, o Brasil, em particular, desenvolveu um protagonismo consistente noutras arenas multilaterais consideradas de «alta política» ou de maior retorno estratégico, onde há uma definição clara de interesses nacionais, mobilização de recursos diplomáticos especializados e construção de narrativas internacionais de liderança. Já na esfera patrimonial, a atuação tende a ser reativa, concentrada na candidatura de bens às listas internacionais ou na participação técnica em comités, sem que se articule com uma visão mais ampla de inserção internacional. Sob a perspetiva teórica do soft power, esta marginalidade revela um paradoxo. O património cultural constitui um recurso privilegiado de influência simbólica, capaz de fortalecer a imagem internacional do país; no entanto, a ausência de integração sistemática entre diplomacia patrimonial e estratégia global sugere um subaproveitamento deste ativo. Daí a relevância deste tema, de forma introdutória, pois neste ST abordaremos casos que mostram até que ponto a diplomacia patrimonial pode tornar-se um ativo relevante para a diplomacia latino-americana. Mas porquê propor um ST sobre a temática da diplomacia patrimonial na América Latina? Diversos trabalhos aprofundaram os mecanismos da diplomacia cultural, da diplomacia externa cultural, da diplomacia cultural externa (acreditem, não são a mesma coisa) e do soft power nas relações internacionais, mas o foco sobre a diplomacia patrimonial é, por assim dizer, algo novo. Podemos afirmar que a diplomacia patrimonial é o patinho feio da diplomacia multilateral latino-americana, apesar do elevado potencial simbólico que encerra. Ao contrário de agendas como o comércio internacional, as alterações climáticas, a reforma da governação global ou a cooperação Sul-Sul, o património cultural raramente figura como prioridade explícita nos documentos estratégicos dos ministérios dos negócios estrangeiros dos países latino-americanos ou como instrumento sistemático de projeção internacional. Do ponto de vista institucional, a diplomacia patrimonial caracteriza-se pela fragmentação e pela baixa centralidade decisória. Esta fragilidade compromete a consolidação de uma política externa cultural de longo prazo, dificultando a formulação de estratégias coordenadas que integrem património, desenvolvimento sustentável, turismo, economia criativa e soft power. Por estes motivos, a proposta deste ST visa reunir exemplos de diplomacia patrimonial na região, elencando esta temática como uma das mais promissoras do universo do património a nível internacional.
