PATRIMÓNIOS SENSÍVEIS E POLÍTICAS DA MEMÓRIA NA AMÉRICA LATINA
Nas últimas décadas, os estudos sobre património cultural na América Latina têm demonstrado que os processos de patrimonialização transcendem as dimensões técnicas, jurídicas e institucionais tradicionalmente associadas às políticas de preservação. O património constitui um campo de disputas simbólicas e políticas no qual diversos grupos sociais atribuem valores, constroem sentidos de pertença, reivindicam direitos e elaboram experiências coletivas de memória. Neste contexto, as emoções emergem como um elemento central para compreender as formas como indivíduos e comunidades estabelecem vínculos com bens culturais, territórios, coleções, arquivos, museus e paisagens, sobretudo quando estes são ameaçados, destruídos, apropriados ou ressignificados. No contexto latino-americano, marcado por processos coloniais, ditaduras civis e militares, conflitos armados, violência política, desigualdades estruturais, desastres socioambientais, deslocamentos populacionais e permanentes disputas em torno da memória, as emoções desempenham um papel decisivo nas formas de responder e resistir a partir do património. Indignação, luto, nostalgia, sentido de pertença, esperança e resistência constituem dimensões que impulsionam ações coletivas em defesa do património e influenciam diretamente os processos de reconhecimento, visibilização, conservação, musealização, proteção ou reinterpretação dos bens culturais. Inspirando-se nos contributos sobre as emoções patrimoniais e em diálogo com as perspetivas críticas do património desenvolvidas na América Latina, este simpósio propõe reunir investigações que analisem as relações entre emoções, memória e património cultural em diferentes contextos da região. Procura-se compreender como os afetos estruturam conflitos patrimoniais, mobilizações sociais, reivindicações territoriais, processos de justiça transicional, reparação histórica, patrimonialização de memórias traumáticas e construção de narrativas sobre passados conflituosos. Será dada especial atenção aos designados patrimónios sensíveis, entendidos como coleções, arquivos, monumentos, locais de memória e outras expressões patrimoniais ligadas a experiências de violência, trauma, desaparecimentos forçados, genocídios, escravatura, colonialismo, racismo, migrações, deslocamento, luta pela terra e pela soberania alimentar, gentrificação, desastres ambientais e outras formas de sofrimento coletivo. Estes patrimónios desafiam os modelos tradicionais de preservação, interpretação e comunicação, exigindo novas perspetivas éticas, museológicas e participativas para a sua gestão, mediação e apropriação social. O simpósio receberá contribuições provenientes da Antropologia, da Museologia, da História, da Arqueologia, da Sociologia, da Geografia, dos Estudos da Memória, dos Estudos do Património e de outras disciplinas afins, privilegiando abordagens interdisciplinares e estudos empíricos desenvolvidos em diferentes países latino-americanos. Serão especialmente bem-vindos trabalhos que abordem patrimónios indígenas e afrodescendentes, patrimónios comunitários, camponeses, políticas públicas de preservação, disputas em torno de monumentos, descolonização de museus, ativismos patrimoniais, intervenções urbanas, educação patrimonial, patrimónios em contextos de desastre e experiências de participação social na construção de políticas de memória. Ao promover o diálogo entre diversas experiências latino-americanas, o simpósio procura destacar que as emoções patrimoniais não constituem apenas respostas subjetivas perante o património, mas fazem parte dos processos através dos quais se atribuem valores. Assim, as políticas da memória são entendidas como espaços de negociação entre diferentes atores sociais, onde o património se configura como um terreno de conflito, reconhecimento, reparação e transformação social na América Latina contemporânea.
