CORPO-TERRITÓRIO EM DISPUTA: EXISTÊNCIAS, RESISTÊNCIAS E MEMÓRIAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS NAS AMÉRICAS
Para numerosos povos originários das Américas, o corpo é o primeiro território, além de ser o lugar onde ocorre a vida, constituindo-se como uma condição de existência: o corpo é a partir de onde se vivem, se disputam e se transmitem tanto as cosmovisões indígenas como as lutas políticas contemporâneas.
Múltiplas tradições indígenas sustentam uma relacionalidade constitutiva onde o que se faz ao território se faz ao corpo, e vice-versa, em contraposição à separação moderna entre natureza e cultura, indivíduo e comunidade. Compreender esta articulação é também uma forma de escutar o que os povos originários têm manifestado historicamente sobre o despojo, a violência, a memória e a vida.
No entanto, esta relacionalidade não está isenta de tensões. O corpo-território não é apenas o cenário de uma disputa face ao Estado ou ao capital extrativo: é também um espaço atravessado por conflitos internos às próprias comunidades (de género, de geração, de migração) que colocam em causa qualquer leitura harmónica ou essencialista dessa relação. Este simpósio convida a interrogar a própria categoria de «corpo-território», noção amplamente difundida no ativismo e na academia: dará conta da diversidade indígena, ou traduzi-la-á –e com isso reduzi-la-á– a uma linguagem que não é a sua?
Por outro lado, o corpo-território não é apenas local de dano. Face ao despojo, à violência e à fragmentação comunitária, numerosos povos originários têm desenvolvido e continuam a desenvolver, através do próprio corpo-território, processos de cuidado, cura e regeneração que não são simples mecanismos de resposta, mas formas próprias de conhecimento: rituais, medicinas territoriais, trabalho coletivo, linguagens que se antepõem às experiências do despojo.
Esta tensão agudiza-se ainda mais quando o corpo-território carece de uma terra física à qual se referir: comunidades deslocadas de forma permanente, gerações nascidas em contextos urbanos, povos para quem o retorno já não é possível. Nesses casos, a categoria é posta à prova, pois obriga a pensar o território em movimento: pode o corpo continuar a ser território quando o próprio território se perdeu?
Tomando a noção de corpo-território e as perguntas críticas que lhe subjazem, este simpósio procura abrir o diálogo interdisciplinar a partir da convicção de que as memórias indígenas não são relíquias do passado, mas forças ativas que organizam o presente e orientam horizontes de futuro. Convocamos trabalhos que explorem as formas como corpo e território se constituem mutuamente nos povos originários do continente americano, abrangendo eixos como: ontologias e cosmovisões indígenas; tensões internas de género, geração e migração; o corpo-território em contextos de deslocamento e urbanização; memórias do despojo e práticas de cura e regeneração como respostas epistémicas; movimentos de defesa face a extrativismos e violências estatais; e quadros jurídicos em tensão com as conceções indígenas de território.
