CIDADE(S) DO SUL GLOBAL E CONTEMPORANEIDADE: OUTRAS EPISTEMOLOGIAS DE UMA NOVA ERA?
A cidade apresenta-se como um dispositivo estratégico que articula uma matriz histórica com a multiplicidade de elementos contemporâneos. Num processo caracterizado por uma política de mercantilização determinada pela lógica de um urbanismo neoliberal, observa-se um tempo de transição de consciência de novas eras, como a do antropoceno e a digital, onde se abrem possibilidades de transição para um mundo pós-humano no qual a cidade e o território, o espaço público e as práticas sociais, a arquitetura e a estética quotidiana enfrentam o que parece ser o fim de um ciclo, dando lugar a um estado diferente. Encontramo-nos no contexto de uma cidade que migra de paradigmas supostamente estabilizados para outros, todavia indeterminados. Enfrentamos transições para territorialidades que mobilizam significados, conteúdos e subjetividades que resultam em espaços (e tempos) constantemente ampliados, reconfigurados, que questionam as dimensões da (re)produção do espaço urbano. Habitamos cidades que resultam de interligações e cruzamentos plurais entre a sua matriz histórica e os desdobramentos de políticas globais de inéditas formas de enunciação da contemporaneidade. A planetarização de processos, que conformam a vida quotidiana num contexto sociocultural diferenciado, configura micro geografias de um quotidiano denso e de novos usos e apropriações do espaço. Num tempo de rutura escalar, no qual as referências espácio-temporais geradas pelas relações sociais se exprimem na problemática da continuidade cidade-território, observa-se: por um lado, territorialidades urbanas definidoras de novas espacialidades e promotoras de interpretações alternativas de uma cultura mundializada que tendem a homogeneizar-se num urbanismo compatível com formas flexíveis de acumulação de capital; e, por outro, territórios que deixam de ser a contrapartida natural que confronta o artifício urbano para se constituírem em suporte de uma cidade difusa e expansiva, expressão das suas lógicas de submissão e controlo. Em países de ricas identidades e imaginários partilhados, esta rutura escalar encontra sentido de pertença na conflituosa singularidade da vida quotidiana. A América Latina, protegida pelo conceito genérico de Sul Global, pode ser compreendida a partir da imensidão do seu território, das urgências do seu povo e do encontro dramático-utópico entre o geográfico e o humano. O oceano verde da Amazónia, o esqueleto dorsal dos Andes e a estepe patagónica constituem um território pensado até agora mais como um recurso inesgotável do que como um delicado suporte para a vida (humana e não humana). Se a abundância parece ter definido este território, emergências manifestam-se nas suas cidades condicionadas pelos extremos do pragmatismo de mercado, da privatopia e do elitismo, e pela precariedade e vulnerabilidade de setores sociais. Este simpósio volta-se para pesquisas sobre processos e manifestações da urbanidade no Sul Global, com uma atenção particular — não exclusiva — às cidades latino-americanas, que, revalorizando uma experiência de séculos de hibridização entre o ancestral e o atual, contribuem para o debate no campo da arquitetura e do urbanismo. Propõe refletir sobre os processos espácio-temporais do Sul Global não como recipientes de condicionamentos globais, mas como produtores de uma epistemologia própria, capazes de debater o horizonte pós-humano para o qual a contemporaneidade parece lançar-nos.
