ADAPTAÇÃO ÀS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS NAS CIDADES LATINO-AMERICANAS: DESAFIOS AMBIENTAIS, SOCIAIS E CULTURAIS
As alterações climáticas são um dos desafios mais complexos que as cidades enfrentam no século XXI. As avaliações do IPCC e do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) alertam que o aumento da temperatura global, as alterações nos padrões de precipitação e a maior frequência de eventos extremos transformarão de forma profunda os ambientes urbanos. Os seus efeitos já se manifestam na infraestrutura, nos ecossistemas, na disponibilidade de recursos, na saúde pública e na vida quotidiana da população. Mas não afetam todos por igual. Na América Latina, onde mais de 80% da população vive em cidades, as alterações climáticas tendem a ampliar desigualdades sociais, económicas e territoriais já existentes, e colocam uma discussão urgente sobre equidade, inclusão e justiça climática.
As cidades latino-americanas têm condições particulares. Muitas cresceram de forma acelerada, com uma proporção significativa de bairros informais e marcadas diferenças no acesso a infraestrutura, serviços públicos, habitação adequada e espaços verdes. Nestes contextos, os riscos associados ao calor extremo, às inundações, à escassez de água ou às alterações no regime hidrológico tendem a concentrar-se nos setores mais vulneráveis. A isto soma-se outro problema: grande parte da arquitetura, da infraestrutura e do planeamento urbano foi concebida em condições climáticas que já não correspondem inteiramente às projeções para as próximas décadas. Por isso, muitas cidades não estão suficientemente preparadas para responder aos cenários climáticos que se aproximam.
A vulnerabilidade urbana não pode ser entendida apenas a partir das características físicas do ambiente construído. Depende também das desigualdades sociais, das formas de ocupação do território, da governança e das capacidades reais de adaptação das comunidades. As alterações climáticas, além disso, colocam em risco o património construído, as paisagens culturais e as diferentes formas de habitar a cidade. Adaptar-se implica, portanto, olhar para além das soluções técnicas e incorporar as dimensões sociais e culturais no planeamento urbano.
Neste enquadramento, o presente simpósio propõe um espaço interdisciplinar para analisar os impactos das alterações climáticas nas cidades latino-americanas a partir de uma perspetiva ambiental, social, cultural e territorial. Procura-se reunir investigações que estudem as projeções dos impactos climáticos sob diferentes cenários futuros, bem como medidas de adaptação orientadas para reduzir a vulnerabilidade e fortalecer a resiliência urbana. Serão bem-vindos contributos sobre climatologia urbana, infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza, gestão da água, adaptação de edificações e infraestrutura, saúde urbana, vulnerabilidade social, perceção do risco, justiça climática, governança, património cultural, planeamento territorial e políticas públicas.
O simpósio aspira a favorecer o diálogo entre investigadores, profissionais e responsáveis pela tomada de decisões de diferentes áreas. Procura também abrir um espaço para partilhar metodologias, resultados e experiências desenvolvidas em diversos contextos da América Latina. Com isto, espera-se contribuir para uma reflexão regional sobre como construir cidades mais resilientes, inclusivas e culturalmente sensíveis face aos desafios das alterações climáticas.
