OS SISTEMAS DE SAÚDE NA AMÉRICA LATINA: ARQUITETURA, INSTITUIÇÕES E REDES ASSISTENCIAIS NOS TERRITÓRIOS
A historiografia da arquitetura sanitária latino-americana tem privilegiado o estudo de hospitais, edifícios emblemáticos, instituições específicas ou políticas nacionais. No entanto, estes estabelecimentos dificilmente podem ser compreendidos de forma isolada. Fizeram parte de redes assistenciais integradas por organismos públicos e privados, empresas, congregações religiosas, associações mutualistas, organismos internacionais e diversos profissionais que, através de arquiteturas e infraestruturas distribuídas em diferentes escalas, contribuíram para a organização dos territórios latino-americanos.
A história da saúde é também a história das instituições, das diversas escalas de atenção médica e das arquiteturas que tornaram possível a extensão dos serviços sanitários. As epidemias, as campanhas higienistas, a medicina preventiva e os processos de modernização impulsionaram a criação de hospitais, consultórios, policlínicas, postos rurais, dispensários, maternidades, estações sanitárias, laboratórios e outros estabelecimentos que, mais do que responder apenas a necessidades assistenciais, configuraram redes de atenção com profundas repercussões urbanas, regionais e continentais.
Durante os séculos XIX e XX, a circulação internacional de conhecimentos, profissionais e modelos institucionais favoreceu a consolidação de políticas sanitárias partilhadas na América Latina. A cooperação entre países, o papel de organismos pan-americanos e internacionais e a participação de instituições estatais, empresariais e privadas promoveram a construção de infraestruturas que articularam cidades, zonas rurais, regiões fronteiriças, territórios extrativistas e espaços de colonização. Nesta perspetiva, a arquitetura da saúde pode ser entendida como parte de processos mais amplos de integração territorial, modernização estatal, desenvolvimento económico e produção do espaço.
Esta sessão propõe refletir sobre as relações entre arquitetura, instituições, redes assistenciais e territórios na América Latina, privilegiando abordagens que permitam compreender os estabelecimentos sanitários como parte de sistemas complexos, e não como edifícios isolados. Convida-se à apresentação de investigações que abordem hospitais, consultórios, policlínicas, postos, dispensários, unidades sanitárias, laboratórios, sanatórios e outras infraestruturas de saúde, bem como estudos sobre planeamento sanitário, circulação de saberes, cooperação internacional, património da saúde, empresas, congregações religiosas, políticas públicas, cartografias históricas e processos de modernização.
Como afirmava Arístides Moll, secretário do Gabinete Sanitário Pan-Americano em 1940, as doenças uniram os países do hemisfério ocidental e a prevenção tornou possíveis as relações interamericanas. Desde as conferências sanitárias do final do século XIX e a adoção de um código sanitário comum em 1905, a saúde tornou-se um espaço privilegiado de cooperação continental. Organismos internacionais, programas de assistência técnica e a circulação de arquitetos, médicos e especialistas promoveram a construção de hospitais, centros de saúde e outras infraestruturas que partilharam princípios de organização, tipologias arquitetónicas e estratégias de implantação territorial em diferentes países latino-americanos.
Neste contexto, interessam as investigações que examinem estas relações a partir de perspetivas locais, regionais, nacionais ou comparadas, prestando especial atenção à circulação de conhecimentos, profissionais, modelos arquitetónicos e instituições, bem como aos processos através dos quais as arquiteturas da saúde contribuíram para construir redes assistenciais e configurar os territórios latino-americanos.
