Skip links

ARTEFACTOS, OBJETOS, HISTÓRIAS E MEMÓRIA. RUMO A UMA DESCONSTRUÇÃO DAS COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS DOS MUSEUS LATINO-AMERICANOS.

Desde uma longa tradição, viajantes, colecionadores e, posteriormente, especialistas nas ciências antropológicas empreenderam a tarefa de reunir objetos provenientes de diversas comunidades, em diversas latitudes do mundo. A partir do século XIX, estas práticas de recolha deram origem a um processo de colecionismo que gradualmente adquiriu um caráter institucional e se converteu num dos pilares para a formação de museus e coleções antropológicas em países hegemónicos, aos quais se somaram, em momentos posteriores, alguns países latino-americanos.

Atualmente, a antropologia, os estudos etno-históricos e a museologia crítica estabeleceram uma frutífera articulação sob as propostas epistemológicas e políticas da viragem decolonial. Nesta perspetiva, o trabalho com coleções etnográficas exige uma reflexão constante sobre as formas como os objetos são estudados, documentados e interpretados. A familiaridade decorrente do contacto quotidiano com as coleções pode conduzir a naturalizar a sua presença e a desfocar a complexidade da presença dos objetos na vida social. No entanto, uma abordagem analítica contemporânea permite reconhecer que cada objeto constitui um repositório de informação histórica, técnica, social e relacional.

Esta perspetiva impulsionou uma revisão profunda do papel dos museus, questionando as narrativas hegemónicas sobre o património e promovendo modelos de investigação, conservação e exposição construídos em colaboração com diversas comunidades. Deste modo, os museus concebem-se cada vez mais como espaços de diálogo, negociação e produção partilhada de conhecimento, onde as coleções etnográficas deixam de ser objetos inertes folclorizados, para se tornarem agentes na construção de novas interpretações sobre o passado e o presente dos povos indígenas latino-americanos.

A cultura material dos povos indígenas deixou de ser concebida unicamente como um conjunto de testemunhos da vida quotidiana ou ritual para ser entendida como uma fonte privilegiada para analisar processos históricos, relações de poder, memórias comunitárias e dinâmicas relacionais. Nas últimas décadas, a consolidação de um paradigma crítico e transdisciplinar favoreceu a circulação de abordagens concetuais e referências entre a antropologia, a museologia e outras disciplinas afins, propiciando o diálogo entre campos do conhecimento que tradicionalmente se tinham desenvolvido de forma independente.

YouTube
Instagram
Explore
Drag