TRANSFORMAÇÕES SOCIOTÉCNICAS GLOBAIS, AMPLIAÇÃO DAS ASSIMETRIAS E TRAJETÓRIAS PRODUTIVAS INSUSTENTÁVEIS: A AMÉRICA LATINA NA TRANSIÇÃO ECOLÓGICA
Propõe-se uma discussão sobre as implicações da problemática transição energética — ecológica na América Latina, analisando como esta se incorpora nos âmbitos económico-produtivo, científico-tecnológico e de políticas públicas, prestando especial atenção ao papel da institucionalidade e dos movimentos sociais sobre as mesmas e, a partir daí, estimar se se avança por trajetórias de sustentabilidade.
Uma revisão do contexto global, das ameaças e riscos decorrentes do agravamento de conflitos geopolíticos, dos desequilíbrios económicos, do acelerado consumo de recursos e energia, e do aumento da degradação ambiental, constata que se está numa inflexão planetária. Entretanto, as transformações tecnológicas disruptivas em curso não contribuem — per se — para orientar o desenvolvimento por trajetórias de sustentabilidade, mas, em não poucos casos, tendem a agravar os problemas devido ao facto de os seus fundamentos assentarem no «senso comum» e nas estruturas institucionais do paradigma tecnoeconómico intensivo no uso de materiais e energia, consolidado na lógica do crescimento contínuo.
Convidam-se as comunidades de investigação da América Latina a participar na discussão com abordagens multidirecionais, com o interesse de conhecer as tendências nas estruturas económico-produtivas, a incorporação de valor nacional, as capacidades de absorção tecnológica e inovação, e quais são os impactos socioambientais delas decorrentes. Neste sentido, são também importantes as contribuições que analisem o papel da institucionalidade e das políticas públicas, em especial em matéria industrial e de regulação ambiental. Informação obtida de um projeto em curso mostra como instituições fracas e processos de desinstitucionalização permitem um aumento da degradação socioambiental. Mas observa-se ainda a formação de uma institucionalidade consubstancial à reprimarização e ao extrativismo (Mercado, A. Meyer, J. B., 2024).
Estreitamente relacionado com o anterior, interessa conhecer e discutir as capacidades científico-tecnológicas existentes e|ou que estejam a ser desenvolvidas para enfrentar as disrupções que está a gerar o avassalador desenvolvimento das tecnologias convergentes e os problemas — impactos — socioambientais que parecem acentuar-se devido à inserção assimétrica da região na estrutura económico-produtiva global. Diversos indicadores sugerem um preocupante aumento do fosso científico-tecnológico. Assim, além de conhecer a magnitude dos esforços (p. ex., investimento, massa crítica, produtividade científica, etc.), é fundamental conhecer as orientações que as investigações adquirem e a sua dependência em relação às grandes linhas de investigação que estejam a ser desenvolvidas nos países-regiões núcleo, e em que medida se orientam para responder a problemas-necessidades locais.
Por último, mas não menos importante, é fundamental conhecer experiências de movimentos sociais e|ou outros atores sociais face às políticas e aos projetos produtivos que afetam o ambiente e as comunidades. Que novas formas de organização podem estar a gerar-se face à desinstitucionalização? Estabelecem-se interações com outros atores sociais e identificam-se experiências colaborativas? Estão a gerar-se novas formas de abordar os problemas e de conhecer a partir de um diálogo de saberes?
