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TRADIÇÃO E CRIAÇÃO NAS ARTES VERBAIS INDÍGENAS

As línguas originárias da América conservam um amplo repertório de géneros discursivos, cuja eficácia social, estética e ritual depende de formas particulares de execução, transmissão e recriação. Rezas, cantos e preces, promessas e pedidos cerimoniais, fórmulas de boas-vindas e despedida, bem como outros géneros de discurso ritual, constituem formas privilegiadas de (re)produção de memória e de atualização da tradição, ao mesmo tempo que são espaços de inovação poética e pragmática. Neste sentido, estabilidade e inovação, permanência e mudança, história e experiência são precisamente pontos de tensão que dão forma e dinamismo às artes verbais. Por outras palavras, a criatividade discursiva não se opõe à tradição, mas constitui antes uma das suas condições de possibilidade. Como se conjugam e se expressam estas tensões nos géneros do discurso ritual? Como se vivencia criativamente a linguagem e a ação ritual? Em que sentidos tanto a tradição como a inovação podem ser fontes de autoridade e de eficácia ritual? Que recursos poéticos, linguísticos, sonoros ou performativos permitem abrir espaços de inovação criativa?
À luz do exposto, o simpósio propõe reunir investigações dedicadas ao estudo das artes verbais em línguas originárias numa perspetiva multidisciplinar que articule a etnografia, a linguística, a etnopoética e os estudos sobre tradição oral. Serão recebidos contributos orientados para a análise formal dos discursos cerimoniais — incluindo os seus princípios compositivos, estruturas formulaicas, campos semânticos, marcas gramaticais e outros mecanismos de organização textual —; para o estudo dos seus contextos de enunciação e das interações entre expressões verbais e outros registos performativos; bem como trabalhos que explorem as estratégias mediante as quais a inovação e a criatividade produzem autoridade textual e os modos como estas são recebidas e interpretadas. O objetivo é propiciar um espaço de diálogo que permita compreender as artes verbais indígenas como âmbitos privilegiados para a transmissão de memória, a produção de conhecimento e como espaços de experimentação criativa para os povos originários da América.

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