MUNDOS COLONIAIS: CULTURA MATERIAL E IMATERIAL NA PRODUÇÃO DE IDENTIDADES
Este simpósio propõe refletir sobre o papel de práticas artísticas e culturais — realizadas entre os séculos XVI e XVIII — na construção, negociação e disputa de identidades coletivas e individuais em diferentes contextos geográficos. Partindo de uma conceção ampla da arte e da cultura material e imaterial — que inclui manifestações pictóricas, escultóricas, arquitetónicas, têxteis, sonoras ou literárias –, procura-se explorar como estas expressões participaram ativamente na configuração de categorias de pertença, diferença e alteridade.
A proposta parte da consideração de que estas formas de criação não constituem meros reflexos de realidades sociais pré-existentes, mas espaços de mediação nos quais se produzem, reproduzem e questionam hierarquias, identidades e formas de conhecimento. Neste sentido, interessa analisar as tensões que atravessam as práticas artísticas em relação com processos de racialização, etnicização e diferenciação social, bem como as formas como diversos atores se apropriaram, ressignificaram ou disputaram tais categorias através de repertórios culturais específicos.
Convida-se a examinar tanto as dinâmicas macro-históricas ligadas à expansão colonial, à circulação transatlântica de pessoas, objetos e imagens, e à formação de sistemas para a sua classificação, como as experiências situadas e as trajetórias particulares que permitem observar a complexidade destes processos à escala micro-histórica. Incentiva-se especialmente a apresentação de trabalhos que explorem a relação entre cultura material, corporalidade e identidades, incluindo estudos sobre indumentária, adornos, objetos de uso quotidiano, repertórios associados às culturas afrodescendentes e indígenas e outras formas de produção cultural frequentemente relegadas pelas narrativas artísticas tradicionais.
Reveste-se de particular interesse a revisão crítica de fontes e materiais já estudados, propondo novas perguntas que permitam tensionar leituras consolidadas e abrir perspetivas renovadas sobre suportes conhecidos. Neste âmbito, as imagens, os objetos e as práticas culturais podem ser abordados como espaços de conflito, negociação e produção de sentidos, capazes de revelar as disputas em torno da definição de identidades e diferenças sociais.
Embora o período colonial constitua um dos eixos privilegiados de reflexão, o simpósio procura também indagar as projeções, persistências e ressignificações contemporâneas destas problemáticas. Serão admitidos contributos que examinem os vínculos entre a história colonial e os debates atuais sobre racismo, representação, memória e identidade, bem como trabalhos que estabeleçam diálogos entre diferentes regiões. Em particular, promove-se uma perspetiva comparativa e conectada que contribua para entrelaçar experiências da América hispânica com outros espaços da América, das Caraíbas, de África e do mundo atlântico.
Atender à cultura material e imaterial permite reconhecer a importância da arte e da estética como agentes ativos na construção de identidades, hierarquias e memórias coletivas. Nesta perspetiva, os mundos coloniais constituem um espaço privilegiado para analisar como objetos, imagens, práticas e saberes participaram na produção de sentidos que continuam a interpelar os debates do presente.
