JUVENTUDE E CINEMA NO FIM DOS TEMPOS: EUROPA E AMÉRICA LATINA. VIOLÊNCIA, SUBJETIVIDADE E CRISE DOS HORIZONTES UTÓPICOS NO AUDIOVISUAL CONTEMPORÂNEO
As primeiras décadas do século XXI têm sido atravessadas por uma crescente perceção de crise civilizacional que numerosos pensadores contemporâneos –como Franco Berardi, Mark Fisher, Fredric Jameson, Slavoj Žižek e Byung-Chul Han– descrevem sob a noção do «fim dos tempos». Neste contexto, o audiovisual contemporâneo tornou-se um espaço privilegiado para explorar as formas como as juventudes experimentam a violência, a incerteza e o colapso dos horizontes utópicos. O presente simpósio propõe analisar comparativamente produções audiovisuais europeias e latino-americanas realizadas entre 2000 e a atualidade, atendendo às formas narrativas e estéticas através das quais se representam as transformações da subjetividade juvenil contemporânea. Será prestada especial atenção a fenómenos como a radicalização política, a fragilidade afetiva, a hiperconectividade digital, as novas configurações da violência e as estratégias de sobrevivência e pertença em contextos de decomposição social. Dentro do corpus europeu, séries e filmes como Adolescence, Utøya: July 22 e Les Combattants permitem examinar diferentes respostas juvenis face ao colapso contemporâneo: desde a implosão violenta gerada em ecossistemas digitais marcados pela misoginia e pelo ressentimento, até à preparação sobrevivencialista face à perceção de uma catástrofe climática e social iminente. Estas obras mostram como a ameaça já não provém apenas das margens sociais clássicas, mas também de subjetividades aparentemente integradas cuja deriva reforça um clima de opacidade em que as juventudes se encontram imersas. Na América Latina, filmes como La jaula de oro e Monos permitem pensar outras configurações da crise: migrações marcadas pela violência estatal, criminal e fronteiriça; juventudes submetidas a condições extremas de precarização; comunidades frágeis que tentam reconstruir formas mínimas de afeto, organização e pertença em cenários de fragmentação institucional e perda de referências geracionais estáveis; bem como processos em que a substituição das figuras de autoridade dentro da estrutura de comando guerrilheira transforma o impulso de autonomia juvenil na reprodução sistemática de lógicas de dominação dentro de um universo distópico com traços próprios. O simpósio procura reunir investigações provenientes da sociologia e da antropologia da juventude, da estética cinematográfica, dos estudos culturais, dos estudos sobre violência e das análises da subjetividade contemporânea. Serão promovidas abordagens interdisciplinares que permitam discutir tanto as representações audiovisuais das juventudes como as transformações históricas e políticas que essas imagens representam. Do mesmo modo, o espaço visa fortalecer redes de cooperação académica entre investigadores e instituições da Europa e da América Latina interessados em juventudes, culturas audiovisuais e crises contemporâneas. Mais do que entender o cinema e as séries como meros reflexos passivos da realidade social, o simpósio propõe pensá-los como dispositivos culturais que participam ativamente na produção, circulação e problematização dos imaginários do presente.
