INTERDISCIPLINAR E CRÍTICO SOBRE PRESERVAÇÃO DOCUMENTAL, METODOLOGIAS DE INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA E JUSTIÇA SOCIAL NA AMÉRICA LATINA. TÍTULO: PATRIMÓNIO À MARGEM: DESAFIOS HISTORIOGRÁFICOS E SALVAGUARDA
Os arquivos históricos na América Latina, desde as grandes instituições nacionais até aos repositórios regionais e municipais, constituem o núcleo do património documental arquivístico da região e são a fonte de informação em que se baseiam as interpretações do passado. Este simpósio pretende analisar a relação simbiótica entre a investigação historiográfica e a salvaguarda deste tecido arquivístico, explorando como as diferenças económicas, institucionais e políticas, entre outras, geram divergências entre as instituições nacionais centralizadas e os arquivos regionais e municipais que moldam as narrativas sobre o passado latino-americano. Analisa-se também como as distâncias técnicas e orçamentais incidem diretamente no desenvolvimento dos diversos processos arquivísticos aplicados à documentação.
Por um lado, os Arquivos Nacionais centralizam a memória estatal e a burocracia oficial, enfrentando desafios de infraestrutura, precarização orçamental e riscos de conservação. Além disso, os fundos documentais locais sobrevivem apesar de uma institucionalidade ainda menor, que os coloca «à margem» do Estado, pelo que a memória e o desenvolvimento regional e local estão constantemente expostos à perda material iminente. A esta realidade complexa soma-se a obsolescência dos suportes analógicos para a investigação histórica do tempo presente, um cenário crítico que colide com a complexa situação da preservação de documentação digital a longo prazo e com os alarmantes riscos de perda de informação contemporânea na América Latina (1990-2026). Esta fragmentação obriga a que a investigação historiográfica contemporânea não seja uma mera leitura passiva de fontes, mas sim uma prática crítica e situada que parte do estado das instituições que as conservam e alimentam, como assinala o notável historiador Lewis Hanke. Os investigadores devem desenvolver metodologias rigorosas para identificar e reconstruir as trajetórias de grupos marginalizados, como comunidades indígenas, afrodescendentes e rurais, e mulheres, cujas vidas e memórias se encontram dispersas entre as deterioradas dobras da documentação oficial centralizada e os fólios subnacionais.
Por fim, argumenta-se que a investigação historiográfica deve assumir um compromisso ativo com a defesa das suas fontes. Salvaguardar e articular concetualmente os arquivos nacionais e locais não é apenas uma tarefa técnica de proteção e conservação, mas um imperativo ético e metodológico. Ao entender estes repositórios como um património cultural dinâmico e interdependente, a prática historiográfica não só resgata dados do esquecimento, como se transforma numa ferramenta de justiça histórica, essencial para descentralizar o conhecimento, democratizar a memória e a identidade coletiva e reescrever a história da América Latina a partir dos seus próprios testemunhos materiais.
