INFOXICAÇÃO, DESINFORMAÇÃO E DESERTO DE NOTÍCIAS: DESAFIOS URGENTES DA COMUNICAÇÃO CONTEMPORÂNEA
O acesso à informação é uma manifestação da Liberdade de Expressão, protegida pelo artigo 13.º da Convenção Americana de Direitos Humanos, fundamental para possibilitar a autodeterminação humana e a preservação da Democracia, o qual encontrou na internet um suposto espaço de liberdade, instantaneidade, globalização, diversidade e autonomia; no entanto, na última década, a promessa dessa rede global vê-se ofuscada pela Infoxicação e pela Saturação Cognitiva, um ecossistema digital repleto de notificações massivas, correntes de mensagens, conteúdos artificiais produto da IA, discursos de ódio e um crescente consumo de conteúdos breves. Este fenómeno fragmentado, potenciado pelo poder das plataformas e dos seus algoritmos de personalização, provoca fluxos de informação que perpetuam enviesamentos e promovem agendas no âmbito de dinâmicas de desinformação sistemáticas.
Paradoxalmente, esta saturação global coexiste com problemas locais que configuram o denominado Deserto de Notícias. Enquanto os ecrãs estão inundados de conteúdos virais efémeros que criam novas narrativas mediáticas, em múltiplas regiões não existem media locais ou exercícios jornalísticos que, a partir do seu ofício, ajudem a compreender e interpretar a realidade tendo como base a informação e o interesse público como bem essencial de uma sociedade democrática. Deste modo, a cidadania fica duplamente vulnerável ao encontrar-se desprotegida perante a sobrestimulação digital sem qualquer verificação ou questionamento, e isolada da construção de sociedades mais justas a partir da compreensão dos acontecimentos do seu próprio ambiente. Neste vazio, as plataformas impõem um controlo de narrativas que não só fragmenta o debate público, mas também agudiza a polarização política (ligada na sua maioria à desinformação) e legitima a governação tecnocrática; em que os algoritmos substituem a deliberação democrática.
Perante esta situação, torna-se prioritário estudar os novos exercícios na criação de narrativas e conteúdos que atuem como possíveis contrafluxos de informação, debatendo o controlo e poder digital a partir da resistência e da apropriação; disto evidencia-se a necessidade de os investigadores realizarem exercícios de divulgação a partir das diversas disciplinas do conhecimento; em que a Psicologia estude os problemas de ansiedade, depressão e dependência gerados por estes processos de sobrestimulação digital; a partir do Direito e das Ciências Políticas procurem formas de regulação e autocontrolo das plataformas; e a partir da Comunicação abordem a gestão da informação e os efeitos da manipulação discursiva na opinião pública cidadã.
Deste modo, o simpósio está aberto a comunicações de todas as áreas do conhecimento a partir das quais se analise o fenómeno, que, além disso, também deriva na Infodemia, conceito empregue pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para descrever situações em que a informação massiva dificulta que as pessoas encontrem orientação fiável, tal como sucedeu perante a Pandemia da Covid-19, na qual circularam massivamente conteúdos sem sustento científico ou médico, evidenciando que a articulação entre a Desinformação, o Deserto de Notícias e a Infoxicação é um dos maiores problemas estruturais do século.
