GEOPOÉTICAS DA DEVASTAÇÃO: MAPAS LITERÁRIOS NA AMÉRICA LATINA
Entre as diversas narrativas que sustentam a construção da América como território imaginado encontram-se as representações simbólicas da geografia, da paisagem, do território, da terra, enquanto poética. A natureza e o meio envolvente apresentam-se como um problema concetual e ontológico na construção do sentido americano; é a «inimiga» que engole, que destrói vontades, mas, ao mesmo tempo, fonte de riquezas e prosperidade, cuja exploração, no entanto, conduz à aniquilação e à devastação. Este simpósio propõe discutir a transformação de conceitos e ideias em torno da natureza, da paisagem e da geografia a partir da história e da literatura latino-americanas, para compreender os caminhos simbólicos que conduziram à devastação. A proposta metodológica parte da história intelectual e concetual, bem como da discussão da geopoética proposta por Kenneth White. O interesse reside em rever, a partir da nossa tradição, as formas de representar a relação entre os humanos e o meio envolvente, bem como os aspetos políticos, culturais e artísticos que a atravessam e que têm conduzido a uma paulatina depredação do meio envolvente e, com isso, a outras formas de violência. Para White, a geopoética encerra em si mesma uma intenção de construir um mundo -em termos de representação simbólica através do pensamento-; por outras palavras, envolve a complexa relação entre o poético, o filosófico e o político numa obra. Um mundo que, entende-se, emerge da consciência cabal do humano sobre a terra e da sua compreensão do cosmos. A literatura apresenta-se como um mapa, um sistema, da forma como pensamos o território e o que nele existe: «E cada língua é, evidentemente, um mapa». A nossa literatura é o nosso mapa, a nossa rota de navegação perante os grandes problemas do mundo. O nosso mundo. O simpósio propõe-se, em suma, discutir estes aspetos a partir das noções da literatura latino-americana, de forma a propor novas categorias de organização do mundo para representar um mundo devastado. Não se trata, portanto, apenas da representação das dimensões geográfica e ecológica de um texto literário, mas sim da consciência, do conhecimento do território a partir do qual se escreve e se lê; contudo, não se limita a estudar a nossa relação com o espaço, nem tão-pouco às representações da devastação ambiental. As propostas de discussão podem ser apresentadas em espanhol, português e inglês.
