ETNOGRAFIA E GLOTOPOLÍTICA NAS MARGENS: (ANTI)LINGUAGENS E (ANTI)MÉTODOS
Este simpósio impulsiona reflexões teórico-metodológicas e experienciais a partir da confluência entre diversas disciplinas para afinar ferramentas compreensivas sobre realidades atravessadas pela marginalidade, pelos ilegalismos e pelos processos de fronteirização. Fazê-lo no diálogo entre antropologia e etnografia, filosofia política, sociolinguística crítica, análise crítica do discurso, glotopolítica e ciências da comunicação, permite articular abordagens disciplinares para entender fenómenos complexos (O’Byrne e Holmes 2008; Pacheco-Vega e Parizeau 2018; Cardin e Renoldi 2020, Renoldi 2015, Renoldi e Bertotto 2026, Bentivegna et al. 2017, Bürki e García 2025, Morgenthaler no prelo). Partimos de vivências partilhadas durante várias estadias de campo na fronteira entre a Argentina, o Brasil e o Paraguai em 2023-2026. Neste período, habituámo-nos a cruzar fronteiras secas, fluviais e fluidas não só entre países e cidades, mas também entre disciplinas, línguas e imaginários, num esforço por compreender uma realidade sujeita a processos políticos relacionados com o desdobramento de violências e ilegalismos em diferentes escalas.
Em continuidade com o simpósio 11.3 Entre bordas: perspetivas em diálogo sobre ilegalismos, desigualdades e outros fenómenos complexos em zonas de fronteira do 58.º ICA 2025 em Novi Sad, Sérvia, dedicado a estudos atuais em fronteiras latino-americanas, apontamos agora para questões de métodos e desafios teóricos inter e transdisciplinares (Lima de Freitas, Morin e Nicolescu 1994) a partir de estudos empíricos. Abordaremos as seguintes questões transversais:
● formas de comunicação marginal como antilinguagens contestatárias em contextos de ilegalidade ou precariedade (Halliday 1976) a partir da etnografia
● construção de sentidos em espaços marginais ou periféricos, como o entramado entre silenciar, calar e dizer (Millán 2025); a indexicalidade da cumplicidade e do segredo ou a «comillação» (Jerez 2013)
● compreensão das desigualdades e diferenças a partir da etnografia e da perspetiva glotopolítica sobre hegemonias, conflitos e resistências (Arnoux 2014, Olave et al. 2024; Becker et al. 2025)
● construção de abordagens sensíveis que superem as metodologias de manual (Renoldi et al. 2021) através das quais se problematizam e reconstroem as políticas da fala e os sentidos locais das experiências marginais
● a partir de abordagens etnográfico-glotopolíticas (Zavala 2020), analisar as práticas vitais em espaços atravessados por necropolíticas pautadas pelo avanço neoliberal, a crise do Estado-nação e o declínio das democracias (Mbembe 2016, Agamben 1998)
● repensar o uso de técnicas e instrumentos tradicionais de investigação (por exemplo, notas de campo, discussões em equipa, entrevistas) e a sua tecnologização (serviços de nuvem e software colaborativo, a IA) para a abordagem de temas e problemas situados nas margens
● propor estratégias para enfrentar iniquidades entre investigadorxs do Norte e do Sul Global, bem como entre a academia e os sujeitos de investigação em situações de precariedade (por exemplo, através das estratégias de horizontalidade, «comunicação-comunhão» e «autoria a várias vozes» segundo Corona Berkin 2019)
Convocamos estudiosxs de diversa proveniência disciplinar e situadxs em variadas etapas do seu percurso académico a apresentar propostas articuladas em torno de uma ou mais das questões sugeridas acima.
