ANÁLISE DE CENÁRIOS DE POLARIZAÇÃO, EXTREMISMO, POPULISMO, AUTORITARISMO E CRISE DA DEMOCRACIA A PARTIR DA PSICOLOGIA SOCIAL E POLÍTICA E DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
As diversas expressões de autoritarismo, as denominadas democracias iliberais e o surgimento no mundo e na América Latina de movimentos e partidos políticos de ultradireita e extrema-direita, que agudizaram lógicas de polarização, fanatismo brando e extremismo em diversos contextos, levam-nos a propor o presente simpósio, que pretende desenvolver um olhar sistémico e complexo, inter e transdisciplinar, que permita relacionar diversas categorias trabalhadas a partir de diversos horizontes disciplinares e teóricos.
A ideia é abordar diversas manifestações e formas da subjetividade política em contextos nacionais e internacionais que permitem rastrear o surgimento de novas formas de autoritarismo, neofascismo e alguns extremismos de esquerda e direita radicais, que, pelo menos, configuraram formas de populismo e fazem uso da polarização social, dos discursos de ódio, da manipulação mediática das emoções, do fanatismo e de outros fenómenos psicossociais que constituem temáticas e problemáticas sobre as quais é necessário refletir.
Pode dizer-se que, a nível global, se está a apresentar um fenómeno que assume características homogéneas, com vocação de hegemonia, no qual emergem novas formas do político que colocaram em crise a democracia liberal. Dando origem a processos autocráticos e autoritários que podem assemelhar-se ao conceito de democracia iliberal, tingidos de matizes de esquerda ou direita, o caso de Maduro na Venezuela, Ortega na Nicarágua, ou o de Bolsonaro no Brasil, Bukele em El Salvador, Orbán na Hungria, Putin na Rússia, Trump nos Estados Unidos e Milei na Argentina.
O intelectual francês Pierre Rosanvallon (2020) refere que os estudos sobre o populismo se centraram em observar que o surgimento destes se deve ao facto de os perdedores da globalização manifestarem um forte sentimento de indignação e fúria perante um sistema que os condena à decadência, o que em muitos casos leva a que tendam a identificar-se com discursos populistas, nos quais muitas vezes convergem setores de extrema-direita e da esquerda mais radical.
Autores como Waisbord (2020) referiram que a polarização é um desafio contemporâneo para a democracia, uma vez que se tem observado como aumentaram os processos de radicalização política, incrementando os níveis de ameaça à tolerância e à diversidade de opiniões no debate democrático. O problema surge quando, no debate e na disputa política, emerge a categoria «inimigo»; por conseguinte, o adversário deixa de ser alguém com valor e passa a ser alguém a quem se atribui hostilidade, chegando-se a um tipo de relacionamento antagónico, em que é deslegitimado, desqualificado e se pode chegar à sua eliminação. Tudo isto manifesta-se em discursos de ódio, extremismo e sectarismo que não permitem o diálogo ou o debate democrático, potenciando projetos autoritários que afetam profundamente a democracia e a convivência.
Por conseguinte, trabalhos de investigação ou de reflexão teórica que abordem estas problemáticas serão bem-vindos e acolhidos neste simpósio como parte de uma reflexão comprometida a partir das ciências sociais para iluminar a crise da democracia contemporânea.
