A RAZÃO INTERPELADA: HERANÇAS, TENSÕES E PROJEÇÕES DO PENSAMENTO DE SANTIAGO CASTRO-GÓMEZ
Na história intelectual da América Latina, o filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez ocupa um lugar singular, pois a sua obra não é o reflexo de uma tradição académica; pelo contrário, transita fluidamente pela teoria crítica da Escola de Frankfurt, pela genealogia foucaultiana e pelo debate decolonial, fazendo dessa mobilidade um projeto de pensamento próprio que contribuiu para a forma como a filosofia latino-americana se compreendeu a si mesma e à sua relação com a modernidade.
Desde as suas primeiras obras sobre a crítica à razão latino-americana até aos seus mais recentes trabalhos sobre filosofia política transmoderna, passando pela história das práticas filosóficas na Colômbia, é possível rastrear uma questão que poderia transversalizar-se: a partir de onde, de que forma se tem feito e para quem se produz conhecimento na América Latina? Esta inquietação não se formula apenas em termos epistemológicos, mas também alcança contornos políticos, históricos e éticos, porque implica confrontar os dispositivos institucionais, coloniais e disciplinares que definiram o que se tem como saber legítimo e o que fica fora desta fronteira.
A tese do ponto zero, segundo a qual a ciência e a filosofia modernas pretendem situar-se neutralmente num não-lugar de observação do mundo, tornou-se uma das contribuições talvez mais debatidas, juntamente com a sua ideia de latino-americanismos e a sua interação crítica com o filósofo argentino-mexicano Enrique Dussel em torno da noção de transmodernidade. No entanto, para além da originalidade dos seus contributos, o que define o seu projeto intelectual é a sua aposta metodológica, a saber: a necessidade de historicizar as condições de produção do conhecimento para poder questioná-las.
Este simpósio propõe-se constituir um espaço de discussão em torno das principais dimensões do pensamento de Castro-Gómez, com o fim de avaliar os seus alcances e examinar criticamente as suas projeções para os debates filosóficos contemporâneos na Colômbia e, naturalmente, na América Latina. O interesse em reunir investigadores, docentes e estudantes em torno da sua obra não consiste num mero gesto de homenagem. Trata-se de um convite a continuar a pensar os argumentos e as teses que ele propôs para discuti-los com rigor, situando-os face aos desafios do presente, sobretudo perante a reorganização geopolítica que a Colômbia e a América Latina começam a assumir.
A filosofia na Colômbia e na América Latina demanda e exige este tipo de exercícios de autocrítica que permitam olhar com suspeita a sua própria história intelectual, assinalando as suas dívidas, mas também as suas conquistas e as suas agendas pendentes.
