A IA E A MENTE CONSERVADORA: A PROSPERIDADE HUMANA ENTRE O LIBERALISMO E A AUTOMAÇÃO
A ascensão da inteligência artificial tem suscitado receios e levantado questões relativas à eficiência e à produtividade, mas também sobre os propósitos mais profundos da educação, do trabalho e da própria cognição humana. Como resposta, emerge uma falsa dicotomia no seio das disputas ideológicas tradicionais: uma posição «classicamente liberal», de pendor libertário e de mercado livre, que defende a IA não regulada em nome do progresso e do crescimento através do reforço dos esforços humanos ou da eliminação de trabalhos indiferenciados, e uma posição social-democrata que advoga a proteção dos direitos dos trabalhadores, dos empregos e da justiça. A falsidade desta dicotomia é acompanhada por uma visão reducionista centrada exclusivamente na economia, mesmo por parte da posição social-democrata, que se apega aos conceitos de trabalho, redistribuição e necessidade económica. No cerne deste debate, a visão conservadora é distorcida através da sua apropriação enganosa pelo campo libertário ou apresentada como obsoleta perante a inovação.
Este simpósio examina se o conservadorismo oferece uma resposta normativamente valiosa ao fenómeno da IA, partindo da premissa de que o pensamento conservador está bem equipado para enfrentar estes desafios, na medida em que coloca em primeiro plano uma conceção mais densa e substantiva da prosperidade humana, do cultivo das comunidades e da procura do bem.
Em contraste com perspetivas que tratam a educação e o trabalho principalmente como formação de capital humano ou como sistemas de credenciação e preparação para o mercado de trabalho, uma abordagem conservadora coloca em primeiro plano a educação como formação do caráter, orientada para o desenvolvimento da vocação, da virtude e do juízo intelectual e moral. O simpósio explora a hipótese de que o conservadorismo, em muitas das suas diversas formas, está particularmente bem posicionado para articular os limites e as ameaças da substituição tecnológica, dado o seu apelo a noções de prosperidade humana e de bem comum, tanto em bases religiosas como seculares, seja em nome da dignidade humana, de um vínculo comunitário que confere identidade, ou de valores transcendentes. Se a eficiência for erigida em métrica principal do que é valioso, então o trabalho humano e as comunidades reais correm o risco de se tornarem obsoletos assim que os robôs se tornarem substitutos acessíveis.
O simpósio convida a reflexões que se apoiem em tradições conservadoras amplamente definidas, incluindo ideias inspiradas num cânone que vai de Aristóteles e Tomás de Aquino, passando por Burke, Oakeshott, Scruton e Strauss, suscitando uma reflexão sobre a relação entre trabalho, lazer e contemplação e como estas dimensões poderão ser reconfiguradas numa era de automação avançada. Em vez de reduzir o valor à produtividade económica, a tradição conservadora tem frequentemente insistido no respeito por uma pluralidade de bens, incluindo a proteção dos vulneráveis, a dignidade do trabalho e a importância de formas não instrumentais de atividade intelectual e moral.
Ao reunir contributos da teoria política, da filosofia, da sociologia e de campos afins, o simpósio visa desenvolver uma reflexão sustentada sobre se o conservadorismo pode oferecer uma resposta coerente e crítica aos desafios colocados pela inteligência artificial na educação, e o que essa resposta revela sobre o futuro das sociedades tecnologicamente mediadas.
