SUSTENTAR A VIDA EM CONTEXTOS DE VIOLÊNCIA: CUIDADOS, GÉNERO E SAÚDE MENTAL
A literatura sobre os cuidados evidencia que uma das suas características centrais é a associação persistente com as mulheres, sujeitos em quem convergem as desigualdades de género, classe, etnia, raça e geração. Em diversos territórios das Américas, esse trabalho sustenta-se hoje em contextos de violência constante: presença do crime organizado, deslocamentos forçados, militarização de bairros e comunidades, consumo problemático de drogas no ambiente familiar, violência anti-imigrante, precariedade dos serviços de saúde, incluindo a assistência à saúde mental. Nestes cenários, a violência não suspende os cuidados: multiplica-os e estende-os. As pessoas cuidadoras têm mais pessoas a seu cargo, em situações mais precárias e durante mais tempo, assumindo maiores riscos e uma carga emocional que raramente é reconhecida em termos materiais ou políticos.
O simpósio parte desta constatação: os cuidados não são um fundo silencioso sobre o qual ocorre a violência, mas sim um dos principais modos como se gere, dia a dia, o dano que essa violência produz. Torna-se, sem se planear, um dos bastiões em que se sustenta o bem-estar individual e coletivo. Neste sentido, reconhecemos no cuidado um dos aspetos fundamentais a compreender, mas também a transformar rumo à construção de sociedades democráticas e inclusivas. Interessa-nos, deste modo, reconhecer as investigações que abordam este fenómeno nas Américas. Entre alguns dos possíveis eixos de análise poderíamos mencionar: as práticas de cuidado quando a crise se torna uma condição estável; a gestão familiar, comunitária e institucional de tarefas, tempos e responsabilidades; conflitos dentro das próprias redes de cuidado; consequências que tudo isto tem na saúde mental de quem cuida e de quem depende desses cuidados; formas de apoio e proteção, tensões e desigualdades, entre outros aspetos da vida quotidiana.
Convocam-se comunicações baseadas em investigação empírica em diferentes territórios das Américas, a partir de perspetivas antropológicas, sociológicas, de estudos de género, estudos culturais, saúde pública e abordagens psicossociais. Serão priorizados trabalhos que: a) analisem os cuidados como resposta quotidiana à violência e ao sofrimento social; b) explorem os efeitos psíquicos, corporais e relacionais da intensificação do cuidado; e c) deem conta de como os cuidados se regulam e distribuem entre Estado, famílias, igrejas, organizações comunitárias ou outros atores.
Interessa especialmente a reflexão sobre as memórias do cuidado: práticas herdadas que se mantêm ou se rompem, formas de proteção que se modificam e saberes que se perdem ou se recriam quando a crise deixa de ser excecional e passa a organizar a vida.
