EMOÇÕES E POLÍTICA MUNDIAL: NOVAS AGENDAS E PERSPETIVAS SOBRE O PODER
Nas últimas duas décadas, as Relações Internacionais têm vindo a experimentar uma importante viragem epistemológica que alargou as fronteiras tradicionais da disciplina, ao incorporar categorias analíticas até há pouco tempo consideradas marginais para explicar a política mundial. Entre elas, as emoções adquiriram um lugar central para compreender o comportamento dos atores internacionais, a construção da ordem global e as dinâmicas de poder que configuram a política contemporânea.
O designado «emotional turn» tem questionado a primazia das abordagens racionalistas, que durante décadas conceberam as emoções como um elemento irracional alheio à tomada de decisões internacionais. Face a esta tradição, tem-se consolidado uma prolífica literatura académica (Crawford, 2000; Mercer, 2005, 2010; Moïsi, 2009; Sasley, 2011; Hutchison e Bleiker, 2014; Solomon, 2015, 2018; Clément, Lindemann & Sangar, 2018; Duncombe, 2019; Koschut, 2020; Iranzo Amatriaín, 1999 e Meštrović, 1997) que demonstra que as emoções constituem uma componente essencial na construção de identidades, narrativas, hierarquias, processos de securitização e formas de legitimidade que atravessam o sistema internacional.
Este simpósio procura abrir um espaço de discussão sobre a dimensão afetiva, desafetiva e passional da política mundial. Numa perspetiva plural, convoca investigações que contribuam para responder a uma questão central: que papel desempenham as emoções na explicação e compreensão dos fenómenos internacionais contemporâneos?
Serão recebidos trabalhos que examinem os fundamentos concetuais da viragem emocional, a relação entre emoção e racionalidade, e os processos através dos quais as emoções individuais adquirem um caráter coletivo e político. Convida-se igualmente à apresentação de investigações sobre a construção de identidades, o reconhecimento, o estatuto, o prestígio, a humilhação, o ressentimento e outras emoções que influenciam o conflito, o revisionismo e a transformação da ordem internacional.
São também bem-vindas contribuições que analisem o papel das emoções na democracia e no comportamento eleitoral; o medo, a incerteza e a resiliência dos regimes autoritários; a segurança internacional, a guerra, a paz, a construção do inimigo, a justiça transicional, a reconciliação e os processos de construção da paz. Da mesma forma, o simpósio procura promover investigações sobre nacionalismo, populismo, polarização política, política externa, diplomacia, negociação, geopolítica, terrorismo, migrações, alterações climáticas, inteligência artificial, tecnologias digitais e outros fenómenos em que as emoções sejam fundamentais para compreender as dinâmicas internacionais.
O simpósio acolhe ainda trabalhos a partir de perspetivas feministas, pós-coloniais e do Sul Global, bem como investigações metodológicas que utilizem análise do discurso, etnografia, process tracing, experiências, métodos computacionais, análise de redes ou abordagens mistas para o estudo empírico das emoções. Este simpósio propõe entendê-las como uma dimensão constitutiva das decisões, das práticas e das relações de poder que configuram a política mundial contemporânea.
