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BIODIVERSIDADE POÉTICA E COMPETÊNCIA ORNITOLÓGICA: AVES, ECOCRÍTICA E CRISE ECOLÓGICA NA LITERATURA LATINO-AMERICANA

As aves ocupam um lugar privilegiado na tradição literária ocidental e latino-americana. No entanto, apesar da sua centralidade simbólica e material, a representação da avifauna na literatura hispano-americana tem recebido uma atenção crítica ainda fragmentária. Este simpósio propõe abordar a presença das aves na literatura da América Latina a partir de uma perspetiva ecocrítica situada e interdisciplinar, atendendo especialmente aos vínculos entre literatura, biodiversidade e crise ecossocial.

A proposta parte do projeto de investigação BIOPOET («Biodiversidade poética. Representação das aves e competência ornitológica na poesia latino-americana»). A partir deste enquadramento, o simpósio amplia a reflexão para a literatura latino-americana em geral, explorando a evolução das representações das aves desde os processos de Independência até à atualidade, bem como as relações entre imaginários literários, construção nacional e consciência ambiental. Face ao predomínio histórico de aves herdadas da tradição europeia (o rouxinol, o cisne, a pomba ou o corvo), numerosos autores latino-americanos incorporaram progressivamente espécies autóctones e endémicas como o condor, o quetzal, a loica, o joão-de-barro ou o beija-flor, configurando um imaginário literário próprio ligado à biodiversidade americana. Além disso, há que considerar que as aves, ao esbaterem as conceções geopolíticas tradicionais e estabelecerem novos horizontes através da migração, conseguiram unir o cruzamento literário transatlântico e gerar novas formas de interpretar o hispano-americanismo.

O simpósio propõe-se refletir sobre como a literatura participa na construção de modos alternativos de habitar o mundo e de se relacionar com a natureza não humana. Neste sentido, as aves surgem como símbolos literários, mas também como «indicadores ambientais» da crise ecológica contemporânea. O desaparecimento progressivo de espécies e habitats, a urbanização acelerada e a degradação dos ecossistemas têm reduzido a presença das aves na literatura contemporânea. Desde as intuições precoces de autores como Vicente Huidobro, Pablo Neruda ou Gabriela Mistral até propostas recentes de escritores indígenas ou ecofeministas, a literatura latino-americana desenvolveu diversas formas de resistência simbólica face à perda de biodiversidade.

Além disso, o simpósio explorará conceitos desenvolvidos no âmbito das poéticas aviárias, como «biodiversidade literária», entendida como a diversidade de flora e fauna presente numa obra; «competência ornitológica» (Binns, 2022), relativa à capacidade de perceber, distinguir e nomear espécies de aves num determinado ecossistema; e «ecossistema literário», referente às redes de interdependência entre sujeito, território, clima, flora e fauna dentro do texto. Outra das ideias-chave, desenvolvida pela investigadora Carla Llamunao (2026), é a do «bioma poético», através da qual a poesia é entendida como uma trama viva entre território, sensibilidades ecológicas e relações ontológicas, e opera tanto no plano extratextual como intrapoético.

Por fim, o simpósio aspira a abrir um espaço de diálogo entre estudos literários, humanidades ambientais, estudos animais e pensamento decolonial, com especial atenção às produções indígenas e ecofeministas contemporâneas. Abre-se também o diálogo a propostas que se inscrevam nas viragens ontológica, vegetal e geológica.

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