A EUROPA E A AMÉRICA LATINA NOS ANOS DA CONTRAPOSIÇÃO BIPOLAR. ATORES, CIRCULAÇÕES E CONEXÕES. PERSPETIVAS A PARTIR DA VENEZUELA E DA COLÔMBIA EM CHAVE COMPARADA E REGIONAL (1958-1989)
Durante muito tempo, a historiografia sobre o período da contraposição bipolar centrou a sua atenção nas dinâmicas políticas, diplomáticas e estratégicas protagonizadas pelas duas superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética. No entanto, a abertura de novos arquivos e a incorporação de abordagens provenientes de diferentes disciplinas contribuíram para questionar esta perspetiva tradicional. Consequentemente, nas últimas décadas surgiram novas agendas de investigação que, entre outras coisas, também colocaram o foco na capacidade de ação dos atores latino-americanos, nas suas redes de intercâmbio e nos múltiplos espaços de circulação de ideias e projetos políticos.
Partindo destas premissas, o simpósio propõe refletir sobre as relações entre a Europa e a América Latina durante as décadas da Guerra Fria, tomando como eixo privilegiado os casos da Venezuela e da Colômbia entre 1958 e 1989. A escolha de ambos os países responde às trajetórias políticas que conheceram durante este período, caracterizadas por uma relativa estabilidade institucional e pela consolidação de regimes civis num contexto regional marcado por ditaduras militares, revoluções e conflitos armados. Esta especificidade permitiu-lhes desempenhar um papel singular nos cenários regional e internacional, tornando-os espaços particularmente férteis para analisar as formas de interlocução entre atores latino-americanos e europeus.
O objetivo, portanto, é refletir sobre como atores políticos, diplomáticos, intelectuais, económicos e sociais de ambos os países construíram canais de diálogo com governos, partidos, organizações internacionais, movimentos políticos e redes europeias, participando ativamente na definição de respostas aos principais desafios do contexto internacional. A mesa procura ainda explorar a margem de manobra dos governos venezuelano e colombiano perante as pressões exercidas, sobretudo, por Washington, destacando as estratégias de negociação, cooperação e autonomia desenvolvidas em diferentes âmbitos.
Neste sentido, pretende-se superar uma leitura exclusivamente bipolar para evidenciar a diversidade de atores, interesses e escalas que configuraram as relações euro-latino-americanas durante a segunda metade do século XX. Embora se privilegiem as experiências da Venezuela e da Colômbia, pretende-se também acolher reflexões que, numa perspetiva comparada ou transnacional, incorporem outros casos latino-americanos ou examinem dinâmicas regionais mais amplas. Mais detalhadamente, o painel propõe centrar-se na circulação de ideias políticas, modelos de desenvolvimento, projetos de integração regional, experiências de cooperação, redes intelectuais, culturais e académicas, bem como no papel desempenhado por partidos políticos, igrejas, organismos internacionais e movimentos sociais na construção de vínculos entre ambos os continentes. O objetivo último da mesa, portanto, é oferecer um espaço de discussão que contribua para ampliar as perspetivas teóricas e as evidências empíricas sobre as relações entre a Europa e a América Latina, favorecendo um diálogo interdisciplinar que permita compreender a complexidade destes processos para além das lógicas do confronto bipolar.
