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PATRIMÔNIO CULTURAL E SOCIEDADE: TENSÕES E DIÁLOGOS ENTRE TRADIÇÃO E INOVAÇÃO

O patrimônio cultural, por ser um elemento de sentidos, construído coletivamente, relacionado à referencialidade e identidade, é um campo de disputa no qual fica evidente sua função legitimadora nas mais diversas dimensões da sociedade: econômica, social, política, ambiental, humana, institucional, cultural. Esse campo não está imune às diversas relações de poder, sejam elas hegemônicas ou insurgentes, o que impacta diretamente no poder decisório sobre os usos presentes dos bens culturais: quem decide o que fica, o que é esquecido ou substituído, como e quando tais usos presentes serão implementados. Nesse contexto, as instituições (formais e não formais) têm um papel importante no exercício de direitos e na efetivação da cidadania. Os Estados, por exemplo, podem ser um contraponto entre as ações individuais e os interesses dos coletivos envolvidos no território, com os seus bens culturais e as práticas insurgentes que buscam, a partir de seus patrimônios, a dignidade humana e justiça social das comunidades. Mas também as próprias regras e padrões instituídos em cada território podem impactar em como cada pessoa e cidadão estabelece os vínculos sociais com seu entorno. Parte-se da premissa que tradição e inovação não sejam polos opostos, mas dimensões que se entrelaçam nos diversos processos de patrimonialização, nos quais comunidades, setores econômicos, comunidades, novas tecnologias, enfim, usos do passado no tempo presente interagem produzindo sentidos sobre memória, identidade e pertencimento. Nesta relação temporal e territorial, percebemos a existência de relações de poder e tensões sobre o que se mantém nas práticas cotidianas e o que acaba sendo esquecido e substituído por novas práticas. O que permanece e por que permanece? Que sentidos estão neste processo decisório? E, principalmente, a quem cabe o poder decisório do que fica e do que é «esquecido»? Tais tensões repercutem no campo jurídico, social e econômico. Que novos usos dos bens culturais (materiais ou imateriais) permitem a manutenção da referencialidade própria do patrimônio cultural? E que usos podem estabelecer desconexões dos vínculos sociais que práticas culturais potencializam no território?
A diversidade existente nas Américas é um de seus principais traços de identidade, evidenciado, por exemplo, nas diversas culturas e línguas encontradas no território. Fruto de relações complexas de colonizações, migrações, existências e resistências, é um território que estabelece relações diversas com seus patrimônios, marcados por migrações das mais diversas procedências e origens. Nessa diversidade estão presentes processos complexos e variados de enfrentamentos, preservação, destaques, apagamentos e até reinvenções culturais. Esse contexto de luta de narrativas sobre o patrimônio cultural, também evidencia as relações que as sociedades das Américas estabelecem com seus bens e entre si, incluindo o próprio congresso internacionais de americanistas. O existir no território também envolve lutas materiais e subjetivas sobre que padrões são legítimos de existirem e se manterem vigentes no tempo presente.
Nesse contexto, propõe-se o presente simpósio com o objetivo de refletir e problematizar sobre as tensões e os diálogos sobre os usos presentes e relações com o patrimônio cultural como recurso simbólico a partir das identidades e identificações, principalmente no contexto das Américas.

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