ARTES, MIGRAÇÕES E PROTAGONISMO INFANTIL: POTÊNCIAS ESTÉTICAS E EDUCATIVAS NAS AMÉRICAS
A crescente mobilidade humana — impulsionada por conflitos, desastres climáticos, perseguições e vulnerabilidades econômicas — intensificou os fluxos migratórios contemporâneos. Na América Latina, milhares de famílias deslocam-se anualmente em busca de refúgio e melhores condições de vida. Nesses movimentos, uma parcela significativa da população migrante é composta por crianças. Ao ingressarem na escola, essas crianças frequentemente enfrentam desafios relacionados ao acesso, acolhimento e inclusão, como barreiras à matrícula (Norões, 2021), barreiras linguísticas e culturais, discriminações de classe, raça e origem (Rocha; Mendes, 2023; Aguiar, Coelho, Assumpção, 2023) e, de forma ainda mais preocupante, o progressivo apagamento de suas identidades e de seus patrimônios culturais, processo frequentemente naturalizado por currículos e práticas pedagógicas de viés monocultural (Candau, 2016).
Diante desse cenário, o simpósio é proposto como um espaço dedicado a reflexões interdisciplinares sobre o potencial das artes na promoção de ambientes humanizadores e interculturais, comprometidos com o pertencimento, a escuta ativa e o protagonismo infantil. A obra Infâncias migrantes e refugiadas: acolher com arte e educação (Hartmann et al., 2025), fruto de pesquisas, ações artísticas e colaborações multidisciplinares compõe referência central deste simpósio ao evidenciar o papel transformador das artes nos processos de escuta e cocriação para a garantia dos direitos fundamentais das crianças.
O simpósio justifica-se pela urgência de articular referenciais prático-conceituais que subsidiem a formação profissional e o desenvolvimento de metodologias participativas de pesquisa com crianças migrantes. Educadores, pesquisadores e artistas necessitam de referenciais teórico-metodológicas para transformar as escolas e as comunidades em territórios de escuta, acolhimento, inclusão e educação intercultural crítica (Walsh, 2005). Assim, o simpósio busca investigações e relatos que utilizem as artes como estratégias de educação, resiliência e diálogo intercultural, desafiando cânones hegemônicos, valorizando epistemologias, saberes e conhecimentos plurais e consolidando a desobediência epistêmica nas práticas pedagógicas cotidianas.
Integrando a linha temática Migrações do Congresso ICA, o simpósio busca transcender a visão da criança como mero apêndice do processo migratório familiar (Zúñiga, 2017; Norões, 2021), reconhecendo-a como protagonista na construção de novos laços comunitários por meio das expressões artísticas. E neste contexto, voltando-se especialmente à compreensão da criança migrante como protagonista, portadora de patrimônios culturais, detentora de saberes próprios e sujeito de direitos.
O simpósio recebe propostas de trabalhos alinhadas aos objetivos de:
– Debater abordagens pedagógicas decoloniais, interculturais e insurgentes que reconheçam e integrem as infâncias migrantes.
– Discutir sobre referenciais e estruturas prático-conceituais na formação de professores e mediadores culturais no campo das artes voltando-se às infâncias migrantes.
– Compartilhar projetos e metodologias interdisciplinares que empregam a literatura, as artes cênicas, as artes visuais, a dança e a música como estratégias de educação, acolhimento, inclusão escolar, resiliência e enfrentamento da xenofobia e do racismo.
– Socializar experiências colaborativas voltadas à cocriação de práticas inclusivas que reconheçam as crianças migrantes como protagonistas de suas culturas e os ambientes educacionais como espaços de diálogo intercultural.
– Discutir metodologias participativas com crianças que reconheçam suas experiências, perspectivas e papel ativo nos processos migratórios.
