ANTROPOLOGIA CRÍTICA DA SAÚDE E EPIDEMIAS NA AMÉRICA LATINA: GOVERNANÇA, RESISTÊNCIAS E PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE
O objetivo deste simpósio é discutir os contributos da antropologia crítica da saúde para a compreensão e o enfrentamento das epidemias na América Latina a partir da governança, da mobilização social e da produção de subjetividades, com base em investigações etnográficas ou na revisão da literatura antropológica. Podemos dividir os contributos da antropologia social ao estudo das epidemias em três etapas. Os seus inícios têm lugar durante a primeira metade do século vinte, como foi o caso da antropologia aplicada durante o indigenismo no México ou o colonialismo europeu em África, na Ásia e na Oceania, e posteriormente com a chamada antropologia da saúde nos anos 60. Nesta primeira etapa, alguns antropólogos questionaram os quadros ideológicos e económico-políticos em que tais epidemias se produziam e propagavam, e outros adotaram abordagens culturalistas que atribuíam a doença aos povos conquistados, justificando a sua dominação. Exemplos disso são doenças transmitidas por vetores como a oncocercose ou o paludismo no México, surtos de histeria ou traumas coletivos, como os estudados pela OMS no Quénia, doenças neurodegenerativas de tipo infecioso como o Kuru na Papua Nova Guiné, ou infeções de transmissão sexual como a sífilis no Botsuana ou na Zâmbia. A segunda etapa surge a partir do aparecimento do VIH na década de oitenta, o que coincide com um novo impulso, inspirado na ecologia cultural e política, dos estudos antropológicos sobre doenças transmitidas por vetores, como o paludismo, ou de tipo infecioso como a cólera ou o ébola, em meados da década de noventa e início dos anos 2000. As implicações sociais, culturais e políticas do VIH representaram um ponto de viragem no envolvimento da antropologia social, com o surgimento de numerosas colaborações com a investigação epidemiológica, adotando uma perspetiva comportamental e culturalista num primeiro momento, e crítica na década de 90. Durante esta década, a antropologia crítica da saúde consolidou-se como uma corrente cada vez mais presente nos circuitos académicos e nos movimentos sociais, desenvolvendo-se investigações e ações importantes que apontavam para os atores e as estruturas políticas e económicas que originavam e reproduziam a doença, condicionando as subjetividades do sofrimento, bem como as formas de mobilização coletiva para o reconhecimento de direitos em saúde. Uma terceira etapa corresponde às chamadas emergências de saúde de importância internacional, a partir do N1H1 em 2009 e até à atualidade com a Covid-19, o Mpox e os novos surtos de ébola. As epidemias são patologias ou eventos de saúde que surgem e se propagam rapidamente numa área específica e durante um período determinado, para além do limiar esperado, e cuja definição, reconhecimento ou exclusão ocorrem a partir da governança do norte global. No simpósio, serão incluídas comunicações que abordem epidemias como o uso problemático de drogas, as violências, os sofrimentos mentais, as doenças crónicas não transmissíveis, as doenças causadas por vírus, bactérias ou parasitas, e as epidemias de origem ambiental e tecnológico/industrial.
